Uma estratégia brasileira

 

 

 

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nte o quadro desolador que se descortina aos olhos brasileiros, muitas perguntas surgem nas mentes dos planejadores estratégicos: Por onde começar? Sobre quais fatores influir? Que objetivos adotar? Onde buscar recursos para quaisquer soluções? As respostas fogem de nosso pensamento. Todavia, vivemos num dos mais ricos países do planeta. Como podemos ter chegado a esse ponto? A resposta é mais simples do que parece. Sempre que um dos campos do poder de uma Nação possui valor próximo a zero, o produto final -- o Poder Nacional -- também será praticamente nulo. Essa é a razão que produz todos os malefícios citados relacionados aos demais campos do poder. Eles são, na verdade, o produto do baixo desempenho do campo psicossocial que acarreta, entre outros males, a freqüente chegada ao poder de políticos incapazes ou corruptos. Justamente, daqueles a quem competiria reverter o quadro citado. É a causação circular cumulativa que temos que interromper. Essa é a principal causa da falta de estímulo aos resultados por nós já obtidos nas áreas científica e tecnológica, das pretensões humildes de nossa política externa, de nossos constrangimentos econômicos e da atual estatura de nossas Forças Armadas.

Esse baixo desempenho do campo psicossocial é o responsável pelo alheamento de parcela expressiva da população por assuntos que deviam fazer parte do seu dia a dia. Essa lacuna favorece atuações inescrupulosas por parte dos políticos, que sentem-se imunes ao veto dos eleitores, por sabê-los incapazes de compreenderem as motivações e os resultados de sua agenda política. É à incompetência de nosso sistema educacional que devem ser creditadas a inexistência de lideres capazes; a aceitação não crítica das mais inusitadas explicações e engodos acerca de soluções políticas; o esquecimento por parte de muitos eleitores do nome dos políticos aos quais concederam seus votos; a descrença nos valores nacionais e a valorização do que é estrangeiro, enfim, a falta de patriotismo e do sentimento de orgulho em fazer parte da Nação brasileira. 

Muito se fala em estratégias de crescimento, em políticas de desenvolvimento, de aumento de qualidade de vida e de distribuição de renda (como se houvesse algo a distribuir). Quase todos esquecem a fórmula básica do progresso de uma Nação – simplesmente: que os pais apenas tenham os filhos que possam transformar em cidadãos melhores do que eles mesmos e que, após gerá-los, os transformem! Essa simples prática pode redimir um País em poucas gerações, aumentando a qualidade de vida quase que independentemente das ações governamentais. No caso do Brasil, o aumento do peso da expressão do Poder Psicossocial possui valor multiplicador incalculável, capaz de afetar rapidamente o Poder Nacional, resgatando as aspirações de todos os brasileiros de que nosso país possa assumir, ante às demais Nações, a posição a que almejamos e a que fazemos jus.

Assim, pode-se atribuir à irresponsabilidade e à insensibilidade de um não pequeno contingente de brasileiros e à falta de visão das Igrejas (que sempre se opuseram a uma campanha de planejamento familiar) grande parte da culpa pela exclusão social de significativa parcela de nossa população ( "A influência da componente religiosa no campo psicossocial"). De pouco servirão os programas sociais se os pais não mudarem de atitude em relação à sua capacidade de proverem saúde e educação a seus filhos antes que sejam gerados e à sua determinação em assegurarem que tenham o mesmo pai e a mesma mãe, do momento em que forem gerados até que se complete a sua educação...

Conforme mencionado, importante parcela de culpa por esse egoísmo social recai sobre a incapacidade de muitas religiões em proverem respostas às novas situações criadas pelos avanços da ciência no seio da sociedade. Tal descompasso não satisfaz o anseio dos fieis em sua eterna busca pela lógica dos ensinamentos religiosos, tendendo a reduzir sua fé o que realimenta a sociedade com efeitos indesejados. Assim, fica claro que o afã de propiciar soluções para tão importante tema tem que superar a aversão a que se efetuem as necessárias atualizações nos conceitos religiosos ultrapassados pela realidade científica. Parece imperativo que se institua a lógica no cerne do pensamento religioso. Somente assim, os Homens poderão melhor compreender os desígnios de seu Deus, o que certamente contribuirá para  torná-los mais responsáveis no que se refere à educação de sua prole.

A família indissolúvel, até a maioridade dos filhos, tem que voltar a constituir a célula básica da Nação. De outra forma, não haverá paz social no horizonte previsível. Enquanto encontrarmos nas ruas, em horário escolar, crianças à cata de esmolas; enquanto observarmos esses pequenos inocentes dormindo ao relento, pelas calçadas das grandes cidades, não haverá esperança para nós! A solução não é a opção pela pobreza, mas sim a opção pela educação! Necessitamos de professores. Escolas temos muitas. Desguarnecidas de quem as faça funcionar adequadamente, afastados que foram pelos ridículos salários e pelo medo dos políticos de proverem educação para o povo, talvez para que este não lhes cobre o seu medíocre e, por vezes, inconfessável desempenho.

Façamos de nossos filhos pessoas melhores do que somos, se pudermos. Caso contrário, não sejamos culpados pela produção de mais infelizes! A justiça divina certamente nos cobrará por ato tão egoísta. Aqueles que têm recursos, que adotem uma criança ou contribuam para a construção de novos lares. Aqueles que têm capacidade, ensinem uma criança. Que cada criança tenha pais (e apenas dois, pelo menos até sua maioridade). Que, finalmente, o País adote qualquer tipo de política visando adequar as taxas demográficas ao crescimento econômico.

Essa é a Grande Estratégia brasileira contra, pelo menos, os inimigos mais visíveis que estão nos destruindo – a influência cada vez menor da fé no pensamento das elites, a infância abandonada pela sociedade e amparada pelo crime; o egoísmo e a irresponsabilidade dos pais que não merecem esse nome e a indiferença da sociedade, a cada dia mais sitiada nos inúteis condomínios de segurança máxima.

Carlos Hernán Tercero

 

      

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