Uma análise sistêmica de Marx

 

 

 grande maioria dos seres humanos sensibiliza-se ante o sofrimento de seus semelhantes. Foi esse sentimento que, provavelmente, inspirou Marx, quando se voltou contra a burguesia, condenando-a pela miséria de muitos, atribuindo-lhe culpa pela luta de classes que sempre marcou a história deste planeta. Alicerçado nesse pensamento, exortou os proletários a assassinarem os membros das classes ditas burguesas, julgando que a paz universal e a igualdade entre os seres humanos daí adviria.

 

A luta do proletariado contra a burguesia, embora não seja na essência uma luta nacional, reveste-se, contudo dessa forma nos primeiros tempos. É natural que o proletariado de cada país deva, antes de tudo, liquidar sua própria burguesia”.(Manifesto Comunista – Marx e Engels)

 

Infelizmente, Marx apenas compreendeu superficialmente o cenário sobre o qual formulou suas desastrosas idéias que causaram e continuam a causar a morte de muitos milhões de pessoas. Em análise de sistemas, sabemos que a mais crucial etapa da solução de determinado problema é identificá-lo corretamente, já que a sua formulação de modo incorreto em muito dificultará ou mesmo impedirá a sua solução. Isso implica em que definamos o Sistema no qual atuaremos e o Meio Ambiente cuja melhoria tentaremos influenciar. Ao conceituarmos Sistema e Meio Ambiente, é vital que tenhamos a mais perfeita compreensão desses dois conceitos e das implicações que os erros cometidos nessas definições poderão acarretar. É vital que conheçamos nossa estatura de poder sobre o Sistema, pois, caso contrário, mesmo que nossa solução pareça brilhante, não seremos capazes de implementá-la.

 

Para tornar mais clara a argumentação contida neste artigo, vamos relembrar que o Problema deve ser definido em termos de Tarefa a ser executada e Propósito a ser alcançado (Problema = Tarefa + a fim de + Propósito). Lembremo-nos ainda que a Tarefa a executar deve remover as Causas das Situações Adversas que se deseja alterar, as quais devem ser buscadas no interior do sistema definido. Recordemos que o Propósito a ser alcançado deve voltar-se para a melhoria do Meio Ambiente no qual nosso Sistema se insere e do qual é servidor, Meio Ambiente esse que desejamos aperfeiçoar com a solução do Problema a ser definido, porém, sobre o qual não temos ingerência (normalmente, o Meio Ambiente é controlado por escalões fora de nossa área de influência). O Meio Ambiente é, assim, o beneficiário do adequado funcionamento do Sistema considerado.

 

Resumindo, a Tarefa a ser expressa no enunciado de um Problema deve atuar contra as suas Causas, todas situadas dentro do Sistema definido e o Propósito a ser alcançado deve voltar-se contra os Efeitos Adversos do atual estado de coisas do Sistema, os quais incidem sobre o Meio Ambiente do qual nosso Sistema é servidor. Ufa...!

 

Por exemplo: Uma industria tem recebido reclamações acerca de acidentes com os automóveis para os quais fabrica pneus, acidentes estes decorrentes da explosão das câmaras de ar. Nesse caso, o Sistema seria a fábrica de pneus; o Meio Ambiente - a segurança dos carros que os utilizam; os Efeitos Adversos - os acidentes, e a Causa - o desempenho dos pneus. O Problema a ser solucionado poderia ser definido como “Melhorar o desempenho dos pneus a fim de aumentar a segurança dos automóveis que os utilizam”. Vemos que a Tarefa “melhorar o desempenho dos pneus” atua contra a Causa do Problema e que o Propósito visa beneficiar o Meio Ambiente. O formulador do Problema deveria ter total autoridade sobre a fábrica e os métodos empregados para a fabricação dos pneus. Esses produtos são empregados em outro Sistema considerado como sendo o Meio Ambiente, sobre o qual ele não possui autoridade, apenas funcionando como servidor. A Solução desse Problema beneficiaria o Meio Ambiente, aumentando a segurança dos automóveis que utilizassem o produto em pauta. Uma Solução possível seria: “Empregar matéria prima mais resistente na fabricação dos pneus”.

 

No caso citado, o Problema foi corretamente identificado. Mas, isso nem sempre ocorre e qualquer erro na definição, seja do Sistema, seja do Meio Ambiente, pode arruinar todo o nosso dia de solução de problemas e conduzir-nos a soluções imprestáveis, embora aparentemente corretas na teoria, já que estarão eivadas pelos erros conceituais a partir dos quais foram concretizadas. Imaginemos que, na situação anterior, o solucionador identificasse o Sistema como sendo "o desempenho dos automóveis" e isso tenha resultado na enunciação do Problema como sendo: “alterar as características dos automóveis a fim de aumentar a segurança desses veículos”. 

 

É claro que a performance dos automóveis é uma das Causas dos Efeitos Adversos encontrados, todavia, os automóveis integram o Meio Ambiente, estando fora do Sistema e fora da alçada do solucionador que sobre sua manufatura não possui poder de decisão, sendo tão somente um servidor daquele. Fica também claro que uma das possíveis Soluções do Problema erradamente enunciado seria: “reduzir a velocidade máxima dos automóveis”. Entretanto, essa Solução não seria possível de executar com os meios à disposição do solucionador. Ela seria adequada (se adotada, aumentaria a segurança), poderia ser aceitável (se a relação custo-benefício fosse compensadora), porém ela é inexeqüível (o solucionador – fabricante de pneus - não tem poder para interferir na fabricação dos veículos).

 

Voltemos ao tema desse artigo. Ao testemunhar as condições a que eram submetidos os trabalhadores de sua época, Marx identificou Efeitos Adversos que procurou com suas idéias corrigir. Analisando o Manifesto Comunista, vemos que ele idealizou o Sistema sobre o qual atuaria como sendo “os seres humanos” e o Meio Ambiente como sendo “a qualidade da vida terrena dos seres humanos no planeta Terra”. Como Causa dos Efeitos Adversos, entretanto, apontou a luta de classes que, desde os primeiros tempos do homem sobre a Terra, afeta seus destinos.

 

A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou pôr uma transformação revolucionária, da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em luta”. (Manifesto Comunista – Marx e Engels – 1848)

 

Assim, no pensamento de Marx e Engels, a Tarefa a executar para remover as Causas do Problema que desejava corrigir (que devem ser buscadas no Sistema definido) tinha que se voltar para os seres humanos e o Propósito desta Tarefa, que visava a remoção dos Efeitos Adversos, deveria buscar a melhoria da qualidade de vida para todos. Todavia, concluir ser a luta de classes a Causa original de todos os Efeitos Adversos por ele testemunhados incorporou um grave erro à análise efetuada. Em nosso exemplo, os pneus eram, claramente, a Causa, mas, no caso dos problemas testemunhados por Marx, a Causa era (e ainda é) a diferenciação existente no comportamento dos seres humanos, esta sim, origem da luta de classes por ele apontada. Seu erro seria similar ao de o proprietário da fábrica de pneus tentar solucionar o Problema, ou seja, melhorar o desempenho dos pneus, sem considerar a qualidade da matéria prima empregada em sua fabricação.

 

Em suma, Marx ignorou a influência do grau de evolução espiritual no comportamento humano. Ele nunca deve ter observado crianças brincando. Crianças em tenra idade não tiveram tempo nem malícia para se diferenciarem em função das condições a que estão submetidas. Crianças pobres brincando com crianças ricas nas escolas públicas de meu tempo eram todas iguais. Eu ainda me recordo que, quando criança, as distinguia sempre pelo comportamento social e não pelo dinheiro que nem sequer nos dávamos conta que representava um problema. Ficava claro quem eram os agressivos, os evoluídos, os inteligentes, os covardes, os afoitos, os amigos, os tímidos, os invejosos, os traiçoeiros etc., não existindo correlação entre essas características e as condições sociais em que viviam. Todas as suas diferenciações, independendo das classes a que pertenciam, afloravam sem que as condições a que essas classes estavam submetidas as tivessem influenciado. Comportamentos semelhantes eram observados tanto em crianças pobres, como em crianças ricas.

 

Mas, Marx, ignorando a existência de Deus, imaginou que todos os seres humanos seriam exatamente iguais. Ele apenas podia atribuir as suas diferenciações de comportamento às condições a que estavam submetidos em função da classe a que pertenciam. Sua solução simples era exterminar a classe rica e dividir seus bens entre todos. Esqueceu que, a partir daí, começavam imediatamente a surgir novas diferenças (como as que surgiram na União Soviética, na China e, agora, no PT). Após o assassinato dos burgueses, os proletários de menor evolução espiritual sempre assumem, pela violência, o mando e exercem sua ignorância e egoísmo social em detrimento de todos. O autoritarismo despótico do comunismo jamais se assemelhou à utópica comuna universal idealizada por Marx.

 

Agora, ficou claro o erro cometido. Marx não fabricava os seres humanos, nem exercia qualquer controle sobre o mérito, sobre o instinto, sobre a capacidade de trabalho e sobre a capacidade intelectual dos indivíduos, causa de todos os problemas. Apenas podia influenciar o seu comportamento por meio de suas meias verdades. As origens do comportamento dos seres humanos constituem mistério acerca do qual nem Marx nem ninguém está totalmente seguro. Quem controla a qualidade do homo sapiens? Aí, as respostas divergem. Mas, quem quer que seja, positivamente não é Marx, Engels ou qualquer outra pessoa. Por isso, eliminar a burguesia em nada altera a melhoria da qualidade de vida dos sobreviventes, ao contrário, conduz à ruína como amplamente demonstrado em todos os países que assim o fizeram. 

 

É que a Causa dos Efeitos Adversos por ele observados não era a luta de classes, mas sim a ignorância dos seres humanos acerca dos meandros do Sistema e do Meio Ambiente nos quais estamos todos incluídos. É a ignorância acerca dos propósitos do Sistema e do Meio Ambiente do qual fazemos parte que faz escassear o altruísmo, gerando o egoísmo da luta de classes. Conhecemos tão somente a versão material destes elementos. Embora as religiões definam como seria, no entender de cada uma delas, a versão espiritual deles, nossa condição humana nos impede de alcançar a prova que a todos poderia convencer.

 

Agora podemos definir o Problema de forma correta. Voltemos ao início deste texto: “a Tarefa a executar deve remover as Causas das Situações Adversas que se deseja alterar, as quais devem ser buscadas no interior do Sistema definido”.  Ora, o Sistema que está sob nosso controle é constituído, de fato, pelos seres humanos. Nesse ponto, concordamos com Marx. As causas dos Efeitos Adversos encontrados no Sistema, porém, diferentemente do que ele definiu, são duas: 

É o desconhecimento desse Propósito que causa a estagnação espiritual, responsável pelo egoísmo dos seres humanos, em última instância, causador da luta de classes. No Meio Ambiente se refletem as influências dos fatores adversos que Marx tentou eliminar. Mas, tanto ele quanto o Sistema no qual estamos imersos são controlados por Deus, que os criou ao seu bel prazer e de acordo com seus impenetráveis desígnios. 

 

Assim, o problema definido por Marx deveria ser:

 

“Criar mecanismos para melhorar o comportamento dos seres humanos, a fim de melhorar a qualidade da vida planetária”. 

 

Várias soluções podem ser adotadas para resolver este problema: assegurarmos e aprimorarmos a educação ministrada às crianças; evitarmos fazer filhos que não possamos transformar em pessoas melhores ou pelo menos iguais a nós mesmos; propiciar o crescimento econômico dos países; garantir o poder de compra dos salários, instituir a democracia (e não as pseudo-democracias), etc. Todavia, fica claro que assassinarmos nossos semelhantes nada resolve, apenas destrói.

 

Mas, é principalmente aproximando os seres humanos de Deus, qualquer que seja o nome pelo qual o conheçamos, e tentando compreender as condicionantes espirituais da vida e do pós-vida que poderemos melhorar o caráter dos seres humanos - as elites, os governantes e os políticos aí incluídos - e finalizarmos com o Efeito Adverso denominado luta de classes. O Manifesto Comunista não passa de um erro de análise de sistemas. Esse erro, tão conhecido e antigo, tem afetado o progresso de nosso país e de muitas outras partes do planeta. É o que analisaremos a seguir.

Carlos Hernán Tercero

   

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