Brasil, trinta anos de estagnação

 

 

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a década de setenta, o Brasil chegou a ser apontado como o segundo país do mundo em poder percebido (Ray S. Cline - World power assessment: a calculus of strategic drift). Naquela ocasião, o Japão crescia a 15% a.a. e, em poucos anos, o seu PIB seria o maior do mundo. Isso seria vergonhoso para os EEUU que, desde o final da segunda grande guerra, ocupava militarmente aquelas ilhas. Comparando-se as extensões dos territórios de ambos os países, bem como as riquezas neles existentes, seria, de fato, embaraçoso se as ilhas dominadas alcançassem produto interno bruto superior ao da potência intercontinental dominante. E, diga-se de passagem, vergonhoso não somente para os EEUU como para as demais potências desse planeta.

Na América Latina, o crescimento sustentado do Brasil sugeria que logo poderia galgar posições ainda mais altas, não se podendo afastar a hipótese de nosso PIB superar algumas das tradicionais maiores economias do globo. Apesar de a política de substituição de importações adotada por nós, nessa época, ser limitada no tempo em que poderia ser mantida com sucesso, coeteris paribus, seu esgotamento ainda tardaria a ponto de capacitar-nos, em curto prazo, a prejudicar interesses voltados para a América Latina. 

Era também fato notório que algumas empresas petrolíferas de peso haviam se endividado no desenvolvimento de tecnologia para a exploração de petróleo do Mar do Norte e não tinham como pagar os banqueiros que as financiaram. Nessa época, batizada por Eric Hosbaw de: “A era do ouro”, o preço do barril de petróleo oscilava em torno de US$ 1,50.

Todos sabiam que os Árabes constantemente ameaçavam aumentar o preço do petróleo e que tanto o Brasil quanto o Japão possuíam economias dependentes de petróleo. Nesse cenário, o aumento do preço do barril surgia como um maná capaz de afetar essas e outras questões de maneira eficaz e supostamente dissimulada segundo os interesses dominantes.

De acordo com o jornal The Observer, de 14 de janeiro de 2001, e a publicação Executive Intelligence Review (EIR), de 26 de janeiro de 2001, pgs. 8-9, o então Secretário de Estado Americano Henry Kissinger, teria desempenhado papel chave na orquestração do aumento dos preços do petróleo em quatrocentos por cento depois da humilhação árabe na guerra do Yom-Kippur.

 Nos documentos citados, o Sheikh Yaki Yamani (Ministro do Óleo da Arábia Saudita nos anos entre 1962 a 1986) declarou que: 

“:– Eu estou 100% seguro de que os Americanos estiveram por trás do aumento do preço do petróleo. As companhias de petróleo estavam em grandes dificuldades naquela época, eles tinham efetuado empréstimos elevados e necessitavam uma elevação de preço para se salvarem” (tradução do autor).

Ele disse que estava convencido disso pela atitude do Xá do Iran, que num dia crucial, em 1974, opôs-se à posição defendida pela Arábia Saudita de que uma elevação de preços seria perigosa para a OPEP por causa dos EEUU, exclamando:

“Por que vocês são contra o aumento do preço do petróleo? É isso o que eles querem. Pergunte a Henry Kissinger – é ele que deseja um preço maior”(tradução do autor).

As insinuações do papel de Kissinger e de um encontro secreto em uma ilha sueca para planejar o aumento de quatrocentos por cento em 1974, uma jogada que frearia e aplicaria ao crescimento econômico do mundo uma devastadora inversão, foram publicadas pelo EIR, a 9 de junho de 2000, em artigo intitulado “Oil and the Coming Finacial Armageddon”. Nesse artigo consta:

“A partir de outubro de 1973, quando os preços do petróleo elevaram-se quatrocentos por cento durante várias semanas, na esteira da oscilante política de Henry Kissinger para o Oriente Médio, uma orquestrada campanha da mídia passou a apontar os países produtores de petróleo da OPEP como sendo os culpados pelo devastador choque” (tradução do autor).

“Longe de ser uma conspiração de gananciosos Xeiques Árabes, o aumento de preços tinha sido planejado bem antes da guerra do Yom Kippur, gatilho ostensivo para a fatídica decisão” (tradução do autor).

“O choque foi preparado com detalhes durante um encontro secreto do Grupo Bilderberg, em maio de 1973, em Saltsjobaden, Suécia. Naquela reunião, incluíam-se os chefes das maiores multinacionais de petróleo americanas, britânicas e francesas, então apelidadas de “as sete irmãs”. Incluía banqueiros líderes da cidade de Londres e políticos chaves de paises da NATO. Henry Kissinger estava entre os seletos convidados. O encontro planejou o valor exato do aumento que ocorreria seis meses mais tarde e discutiu como os banqueiros que financiavam aquelas multinacionais atuariam em relação ao que Henry Kissinger chamou de petrodólares recicláveis.” (tradução do autor).

“A reciclagem do problema causado pela súbita riqueza da OPEP foi efetuada sob a forma de empréstimos de eurodólares para as nações devedoras do terceiro mundo, obrigadas a tomarem dinheiro para o financiamento de suas enormes dividas ocasionadas pela necessidade de continuarem a importar petróleo. Essa reciclagem foi a origem do que, nos anos oitenta, chamou-se de: a crise da divida do terceiro mundo”. (tradução do autor).

Nunca foi segredo o desejo do Egito e da Síria de vingarem as humilhações sofridas pelos árabes nas guerras travadas anteriormente contra Israel (afinal, Israel sempre descumpriu as resoluções da ONU relativas à ocupação da Palestina). Em 6 de outubro de 1973, no dia do Yom Kippur, o sábado dos sábados, quando todos os judeus jejuam por vinte e quatro horas, após ataque de surpresa, as forças egípcias avançaram sem oposição, detendo-se no ponto em que planejavam chegar considerada a melhor das hipóteses. Aparentemente, Israel havia sido surpreendido. Teriam sido surpreendidos? Apesar da conhecida capacidade do Mossad? Considerando o acordo anterior feito com a Jordânia para que Israel não lutasse em outra frente? 

[Existem rumores de que doze dias antes do inicio da invasão, a 25 de setembro de 1973, a primeiro ministro Golda Meir teria recebido aviso pessoal do rei Hussein da Jordânia acerca do iminente ataque do Egito e da Síria. A Jordânia enviou uma força simbólica para as colinas de Golan para mostrar sua solidariedade com seus irmãos árabes. Todavia, essas tropas nada fizeram durante a guerra o que possibilitou a Israel concentrar forças contra as ameaças reais dos egípcios e sírios. Apenas vinte e oito carros de combate teriam permanecido na fronteira junto ao rio Jordão].

Os EEUU e a OTAN empregaram todos os seus estoques de armas em ajuda a Israel, mesmo em plena guerra fria. Portugal cedeu Açores para os aviões americanos que reabasteciam o esforço de guerra israelense. Eles estavam tão carregados que não podiam efetuar vôos sem escala. O general Ariel Sharon reagiu, subitamente, quando parecia aos egípcios que haviam derrotado Israel e tripudiou sobre os oponentes, cruzando o canal de Suez, apesar de propagar-se que não teria ordens para fazê-lo. Essa foi a suprema humilhação dos árabes. Isso é o que consta nos livros.

Ante isso, a OPEP, conforme teria planejado Henry Kissinger, aumentou os preços do petróleo em 400%. Findaram os milagres brasileiro e japonês. As Sete Irmãs, gravemente endividadas por seus investimentos para explorarem o petróleo do Mar do Norte, foram salvas. O Japão se recuperou. O Brasil não. Trinta anos de estagnação agora.

A verdade é sempre fácil de entender. São as mentiras que exigem construções meândricas e por vezes de difícil compreensão. Todavia, o mecanismo de nossas mentes anseia por algo que considere viável para poder dar prosseguimento a qualquer raciocínio. Temos que escolher uma versão. Geralmente se escolhe a versão repetida ad nauseam (quando não se pode concluir sozinho) – a versão que mais se encaixa em nossos conhecimentos. Entretanto, insiste a lógica em que não se pode afastar a suspeita de que o culpado seja aquele que mais se beneficia com o crime. Pelo menos, é o que quotidianamente assistimos nos filmes policiais...

Carlos Hernán Tercero

 

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