A influência da componente religiosa no campo psicossocial

 

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 atual cenário brasileiro é fruto de erros de natureza política e estratégica ocorridos ao longo de nosso complexo caminho na construção de uma das maiores nações do planeta. Nesse mister, é importante que se diga que a influência exercida pelas Religiões em nossa sociedade balizou ações de natureza política (e omissões) que vieram a afetar o campo psicossocial de forma bastante negativa.

Nota do autor: É importante mencionar que diversos fatores repercutiram de forma negativa sobre os vários campos do poder nacional. A influência religiosa é aqui enfatizada porque sua ação foi determinante para o estabelecimento de política errônea que está diretamente relacionada às conclusões desse artigo.(ver também: Uma estratégia brasileira)

É fato sabido que as muitas religiões somente admitem o sexo para fins de procriação. Segundo as Escrituras, constituiria pecado evitar filhos, pois consta em Gênesis 2:28. “...frutificai e multiplicai-vos, e enchei a Terra...” Todavia, os líderes religiosos parecem ter esquecido de estabelecer parâmetros que nos permitissem saber quando a Terra seria considerada como estando cheia, ficando tal determinação a cargo dos que influenciam e estabelecem as políticas demográficas dos Estados... Vários o fizeram, entretanto, no Brasil, por influência das Igrejas, nenhuma política foi adotada acerca da expansão demográfica. Essa lacuna viria a gerar tristes conseqüências para o nosso desenvolvimento: 

É razoável admitir-se que o mandamento contido nas Escrituras decorreu da situação de carência demográfica existente no planeta àquela época. O conservadorismo de muitas religiões, entretanto, voltou-se contra o estabelecimento de quaisquer políticas que visassem o controle das taxas demográficas, mesmo à luz de previsões cada vez mais sombrias... Como todos os brasileiros apreciam o sexo, sempre procurando evitar restrições a essa prática e constituem um povo de grande religiosidade, uniu-se o útil ao agradável, todos concluindo prontamente que sempre era necessário gerar mais filhos. Foi desastrosa a tentativa de impor a abstinência sexual aos brasileiros. Ela fez aumentar a taxa de crescimento demográfico, pois as mulheres que não quisessem incidir em pecado apenas podiam relacionar-se com seus maridos nos períodos férteis.

Muitas mulheres passavam, em cumprimento às determinações religiosas, a evitar os seus maridos quando já tinham gerado os filhos que desejavam, por considerarem pecado o sexo por simples prazer. Tal perspectiva deu origem à miscigenação racial, pois os homens, possuindo características que os tornam propensos a abominar a vida celibatária, buscavam relações sexuais com mulheres de outras raças, como a nativa e a negra. Nesse ponto, a omissão foi benéfica à constituição de uma sociedade onde o preconceito racial foi substituído pelos preconceitos social e cultural. 

Outro expediente bastante empregado foi a instalação de amantes em domicílios clandestinos. Muitos que podiam pagar tinham mais de uma família. Isso viria a contribuir para minar a integridade de caráter de muitos brasileiros. Quem faz um cesto faz um cento... Da mesma forma, a geração de filhos bastardos contribuiu para o aumento da corrupção dita cartorial que desde idos tempos assola nosso país. Afinal, os pais sempre desejam que seus filhos sejam felizes ou, na pior hipótese, que não lhes causem problemas... Assim, os pais de filhos ilícitos que detinham algum poder procuravam conseguir uma maneira, um jeito, de obter para eles boas colocações e outras benesses, lançando mão de sua influência política. Porém, isso lhes fazia ficar, como se diz popularmente, “com o rabo preso” já que, desejando manter o anonimato, eram forçados a solicitar tais favores a outrem, o que quase sempre os deixava ao sabor de chantagens corruptoras... Isso certamente contribuiu para a formação do hábito de “dar um jeitinho nas coisas” que, não raro, encontramos no quotidiano nacional.

Além da antiga religião oficial, também as religiões adotadas pelos índios e pelos negros contribuíram para a miscigenação das raças e para o crescimento demográfico acelerado. É bastante conhecida a permissividade sexual que caracteriza os filhos de Tupã. Quanto aos adeptos das religiões africanas, analisando-se o que restou das escrituras do Odu-Ifá, por exemplo, percebe-se a grande importância atribuída à possibilidade ou incapacidade de gerar filhos. A medicina tradicional africana contém inúmeras receitas de infusões destinadas a auxiliarem a fertilidade feminina e masculina. Uma prole numerosa constitui  uma das principais riquezas a que pode um filho de Olodumaré aspirar, segundo as tradições africanas.

Porém a mistura das etnias, se por um lado auxiliou a formação da verdadeira raça brasileira, por outro produziu um grande número de crianças que não contaram, na grande maioria dos casos, com a assistência provida pela família tradicional. Essa situação deu início à prática, ora bastante comum, de os pais não se preocuparem em transformar seus filhos em seres humanos melhores do que eles mesmos. Pouco a pouco, foi aumentando o alheamento do pai na determinação dos destinos de seus filhos não tradicionais. Contando apenas com suas mães, que não desempenhavam papel preponderante na comunidade, esses “órfãos” pouco conseguiam obter da sociedade tradicional que, inclusive, os desprezava. Foi sedimentando-se assim, gradativamente, o abismo social já criado pelo desprezo aos índios e pela escravidão dos negros.

Tal estado de coisas gerava uma situação de inferioridade para as mulheres, que pouco podiam fazer em face dos direitos que a justiça da época lhes assegurava.  A sociedade hipócrita cobrava das mulheres comportamento social que contrastava com a liberdade assegurada aos homens. O sentimento de repressão aumentava dia a dia. Direitos femininos começaram a ser assegurados, porém sempre considerados insuficientes. Os contrastes ainda permaneciam. A repressão gerou o surgimento de diversos movimentos em prol da liberdade feminina. A essa busca pela igualdade sexual veio aliar-se, nos anos cinqüenta, a comercialização da pílula anticoncepcional. Esse evento finalmente, viria a igualar, não pela interpretação do tabu religioso, como seria desejável, mas pela medicação oral, as mulheres a seus parceiros homens.

A inevitável conseqüência foi o aumento da permissividade feminina. Essa reação, aliada às peculiares características sexuais dos homens e à ignorância do perturbador novo fato pelas Igrejas (que continuaram com seus preceitos imutáveis acerca da questão) produziram terríveis enfermidades sociais. O aumento da população em número superior ao que poderia ser suportado pelo crescimento econômico traduziu-se em grave redução da renda per capta e agravou ainda mais a já deficiente distribuição de renda. A partir daí, inúmeras crianças passaram a serem abandonadas também por suas mães, agora libertas do jugo sexual que as aprisionara por tantos séculos, dedicando-se muitas delas a outras motivações e afazeres.

As religiões quase sempre se opõem ou se omitem no que se refere a programas de planejamento familiar. Parecem ter adotado a opção pela pobreza. Basta recordar os noventa milhões em ação (do tri-campeonato mundial em 1970) com os cento e setenta milhões em ação (do penta em 1992) para verificarmos que o Brasil cresceu o equivalente a 1,3 Franças em apenas 32 anos!!!! Indicadores demográficos dessa natureza apenas podem causar progresso em Países em forte expansão econômica, como no caso dos EUA, ao participarem da reconstrução do mundo destruído pela segunda grande guerra. 

Para piorar tudo, o crescimento econômico dos anos sessenta e setenta, que foi espetacular, não se manteve nos anos oitenta e noventa. O crescimento irresponsável da população, todavia, não parou, ocasionando, conforme já mencionado, resultados catastróficos em termos de qualidade de vida e distribuição de renda. Cada vez mais aumenta o número dos que ingressam no mercado de trabalho ante uma quase congelada quantidade de recursos. Desemprego e baixos salários são o fruto dessa irresponsável atitude de grande parcela da população (ironicamente, dos que por ela são mais severamente punidos, ou seja, os mais pobres; aqueles que não foram beneficiados pelos inexistentes programas ou políticas de planejamento familiar).

 

 

              

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