Reflexões 

Contemporâneas

 

 

 

O

mundo anda muito confuso. Em muitas partes fala-se de injustiça social. Em muitas partes convive-se com injustiça social. Muitos possuem soluções mágicas e estão absolutamente certos de sua eficácia. Outros se baseiam na História como meio de não revivê-la. Na medida em que os anos passam sem que surjam respostas aos anseios dos que sofrem (embora existam muitas de plantão no campo filosófico) a pressa na busca da solução aumenta. Muitos conservadores começam a fazer cada vez mais concessões sem perceberem que elas apenas contribuem para aumentar os males cuja cura depende sempre de remédios amargos. A causa de todos os males ainda reside no erro original, tão bem sintetizado pelo Padre Leme Lopes: “para saber o como da vida é necessário determinar antes o porquê da existência”.

Na sociedade ocidental, grande número de indivíduos grava sua escala de valores com a medida da capacidade individual de consumir. Isso pode ser facilmente observado na porta de um hotel de luxo. Dificilmente, uma pessoa que saltar da porta traseira de um Lexus, trajando a última criação da moda e exibindo jóias de alto valor será interpelada pelo porteiro. Muito ao contrário, ele certamente tudo fará para agradar “tão ilustre pessoa”, não importando sua cor, idade, sexo, saúde etc. Porém, mesmo que você seja um cientista, experimente tentar ingressar naquele mesmo recinto desembarcando de um velho Volkswagen, calçando sandálias e uma roupa velha... Será de pronto interpelado por elegante cidadão de terno preto que lhe indagará: -- em que posso ajudá-lo? Ou... : -- a entrada de serviço é lá nos fundos...

De fato, somos plenos de segregação social e cultural. Inexiste, todavia, na sociedade brasileira a segregação racial, embora algumas atitudes e declarações sugiram que deve haver interesse em criá-la, já que a alguns parece interessar a desunião nacional. Além disso, culpar-se a segregação racial pelos males que atingem os menos favorecidos elimina o problema de ter-se que encontrar a solução para o mal da desigualdade social, solução esta de alto grau de complexidade e dificuldade, sem mencionar os longos prazos envolvidos que descartam a possibilidade de que os políticos possam usufruir os dividendos políticos que por ela poderiam ser gerados.

A adoção da segregação racial como culpada pelos males torna mais fácil explorar tais dividendos, bastando para isso aprovar qualquer legislação que trate a raça discriminada com qualquer vantagem (diga-se de passagem, que não existem raças e sim uma raça: a humana e que muitos dentre os beneficiados repudiam essa solução, por considerá-la populista e sentirem-se inferiorizados pelo tratamento diferenciado). Mas, para os políticos, pouco parece importar que isso cause maior divisão social e que deixe inalterado o verdadeiro problema: a distribuição de renda.

Em cenário onde se medem as pessoas principalmente pela sua capacidade de consumir, fica evidente que os valores espirituais tendem a serem minimizados. A capacidade de frequentar o mercado depende não deles, mas do acúmulo de riquezas e isso resulta, principalmente, da quantidade de poder material que cada individuo consegue conquistar e exercer.

Em passado recente, os indivíduos eram julgados em função de suas aptidões, por mais diversas que fossem. Elas determinavam o seu valor para a sociedade. Era o tempo da escassez e os que eram capazes de produzir eram respeitados. Outros eram considerados como possuindo atributos de nobreza e eram valorizados por isso. Mas, quase nunca, foi o elemento humano pesado por sua evolução espiritual, ao invés de por quaisquer atributos relacionados ao mundo material. A lei do menor esforço, que nos aconselha a maximizar o prazer e a evitar a dor, parece exercer seu despótico mandato no planeta, escravizando as mentes, as ideologias e os sistemas políticos. Mesmo o envio de missionários divinos à Terra pouco parece ter alterado a cegueira humana. Embora muito se apregoe a maravilha de seus ensinamentos, pouco se faz para adotá-los. As religiões criadas em seus nomes, cedo barganharam seus credos por parcela de poder terreno capaz de assegurar sua sobrevivência.

Assim, é perfeitamente compreensível que o aumento do papel do mercado em nossas vidas seja cada vez maior. Foi, justamente, a concentração dos esforços humanos na conquista do progresso material e a estagnação imposta à maioria das mentes humanas pelas religiões, (também estagnadas pela imutabilidade de suas bases originais) que causaram a tirania que, hoje, ele (o mercado) exerce sobre todos nós. Essa tirania é harmônica com os sistemas políticos nos quais ele se insere, que tudo fazem para mantê-la. Como chegamos a tal situação?

A distribuição de renda sempre foi um problema planetário. No Brasil, diz-se: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Os poderosos sempre tomaram tudo o que consideravam adequado tomar baseados em quaisquer razões que seu poder material permitia-lhes alegarem. Mas, no passado, as diferenças de consumo entre dois seres humanos pertencentes à mais alta hierarquia e à mais miserável condição eram quase que inexistentes. O líder do grupo de seres que habitavam as cavernas vivia praticamente da mesma forma como os que o seguiam.

Essa situação persistiu por muitos séculos e apresentou modificações extremamente lentas ao longo do tempo. Mesmo no Egito antigo, os Faraós ainda viviam de forma semelhante a seus súditos. As mordomias de que desfrutavam estavam relacionadas principalmente ao esforço que tinham que despender para consegui-las. Eles podiam tomar um banho em banheira suntuosa no interior de magnífico salão. Mas, seus súditos podiam banhar-se em fontes térmicas naturais. Os faraós tinham tratamento médico similar, sentiam as mesmas dores e seus meios de transporte eram semelhantes (bem mais do que hoje) aos de seus súditos.

É verdade que muitos milhões de pessoas morreram por não terem acesso mesmo àquele mercado simplificado ou pela incapacidade de serem atendidas as necessidades mínimas locais. Recordemos que os meios de conservação e de transporte de alimentos eram muito limitados. As guerras napoleônicas, por exemplo, varreram os estoques de alimentos de muitos países europeus. Os exércitos em campanha consumiam tudo por onde passavam, deixando um rastro de fome em seu caminho. Muitos milhares de civis morreram por falta de alimentação nos invernos dessa época. Entretanto, em épocas de paz, os estoques eram suficientes para a maioria dos habitantes.

À medida que o progresso material foi sendo conquistado, a produção das novas descobertas tornou-se cada vez mais dependente de matérias e tecnologias peculiares cuja posse passou a ser disputada pelos interessados em obterem ganhos oriundos do desejo de consumir inerente a todos nós.

Quando se produziam alimentos ou têxteis diretamente relacionados à sobrevivência, além do lucro, o que interessava era aumentar a produção a qualquer custo para que não se padecesse de fome ou frio durante os invernos. Hoje, com a proliferação de produtos de toda a ordem, a maioria deles de necessidade supérflua de consumo (não imprescindíveis à sobrevivência), o que importa é que o produtor possa lucrar com a produção e impedir que os concorrentes produzam algo melhor ou parecido. Quando se produz um automóvel de luxo, o intento é dotá-lo de peculiaridades que justifiquem a cobrança do maior preço possível. Se muitos não conseguirem adquiri-lo, isso pouco importa, pois sua posse é totalmente supérflua.

Quando se produziam alimentos e têxteis, além do lucro, procurava-se garantir a continuidade da vida. Quando se produzem as atuais modernidades, procura-se maximizar o lucro. Deixar de participar desse mercado não impressiona do mesmo modo que a exclusão do mercado de alimentos e roupas, do qual depende a vida. Isso fez com que a exclusão de mercados passasse a ter menor importância e, com isso, também menor visibilidade, pois a maioria dos produtos que o compõem é supérflua.

Assim, em nossos dias, muitos não conseguem enxergar a exclusão dos mercados de produtos vitais que é imposta pelos sistemas políticos a tantos miseráveis em nosso planeta. A exclusão torna-se mais grave por contribuir para reduzir a qualidade da educação paterna e materna que deveria ser maximizada na formação do caráter dos mais jovens. É que ela afeta a posição que os pais ocupam na sociedade. Pessoas excluídas dificilmente podem progredir intelectualmente a ponto de poderem educar seus filhos para a vida moderna e tornarem-se os espelhos de seu futuro. Ao contrário, os filhos dessas famílias tendem a condenar os pais pela sua situação deplorável, tendendo a discordarem de seu aconselhamento.

A complexidade dos atuais sistemas produtivos fez com que passassem a depender de pessoas com educação bem mais complexa do que a que, no passado, era fornecida pelas tradições artesanais familiares. Antes, os filhos aprendiam com os pais como produzir para seu sustento. Hoje, não é incomum encontrar pais tentando aprenderem com os filhos de que forma manterão seus empregos. Essa metamorfose no “ranking” familiar contribuiu sobremaneira para reduzir ainda mais a já pequena influência da componente espiritual na educação dos jovens, pois, normalmente, ela é oriunda dos mais velhos, agora, em sua maioria, sem voz.

Não se pode, pois, afirmar ao certo se é a crise da educação no seio da sociedade que causa a exclusão do mercado ou se é a discriminação imposta pelo mercado que causa os problemas da educação no seio da sociedade. Na verdade, ambos os fatores: exclusão dos mercados e educação insuficiente realimentam-se como numa causação circular cumulativa.

Essa redundância não poderá ser solucionada apenas com a melhoria da situação econômica das pessoas. Ela dependerá de um grande esforço no sentido de aumentar a preocupação dos seres humanos com o lado espiritual da vida. Mas, isso somente será possível caso os religiosos unam-se em torno dessa idéia a ponto de exercerem significativa influência sobre os meios de comunicação, cujo auxílio é imprescindível a quaisquer iniciativas voltadas para a mudança de comportamento da sociedade. Isso não parece fácil, já que o mau uso da mídia é um dos grandes culpados pelas mazelas dos jovens.

O planeta chegou a um impasse. As novas conquistas tecnológicas estão se voltando contra a sociedade por terem os seus usos alterados segundo conveniências marginais. Cada vez mais, a sua posse é conseguida por meios ilícitos pelos que não as podem adquirir. Assim como as facas tanto podem repartir o pão como matar, da mesma forma, automóveis caros são empregados em atos criminosos. Telefones celulares propiciam as telecomunicações entre criminosos prisioneiros e criminosos em liberdade. Redes de computadores são empregadas para desviar recursos de várias fontes. Aviões são empregados em atos de terrorismo. Técnicas laboratoriais produzem narcóticos mais poderosos e sintetizam outros.

Dessa forma, o progresso material não está sendo capaz de melhorar as condições de vida no planeta com a intensidade exigida pelo crescimento demográfico. Ao contrário, ele tem aumentado o abismo que dia a dia vai afastando os seres humanos. Esse abismo arrasta cada vez mais vítimas para as suas profundezas, independentemente de seu progresso material.

É preciso que todos entendam que o enfraquecimento do campo espiritual sobre a Terra afetará cada vez de modo mais negativo o nível da qualidade de vida de todos os seres humanos, tornando-os incapazes de usufruírem das benesses conquistadas pela ciência.  

Carlos Hernán Tercero

 

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