Quo Vadis?

 

 

“Vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar

 cuidará fazer  um  serviço  a  Deus. E isto vos farão,

  porque não conheceram ao Pai nem a mim”.

João 16, 2-3

A

s coisas, hoje, ocorrem com maior velocidade do que antigamente. Em passado recente, havia mais tempo para que pudessem ser compreendidas, adaptadas e absorvidas as inovações tecnológicas, os novos costumes, a moda, enfim, todas as transformações decorrentes do progresso cada vez mais vertiginoso de nossa civilização. Esse estado de coisas, desde o final do século passado, está a impor alterações no pensamento, nas atitudes dos indivíduos, na educação das crianças e no comportamento da sociedade como um todo. A palavra conservadorismo adquiriu uma conotação de coisa ultrapassada e retrógrada, não somente em face da propaganda e militância dos chamados progressistas, como pela própria inadequabilidade do que seu significado traduz nesse cenário que não existia antes. De fato, ante a aceleração do progresso, nem mesmo o conservadorismo pode se manter conservador...

 

Temos que meditar sobre o fato de que, quanto mais rapidamente se processam as transformações tecnológicas, mais aumentam as possibilidades das desigualdades materiais e se avoluma a cobiça dos que não têm acesso ao estado da arte da moderna tecnologia. É que, dia a dia, é crescente o número de pessoas que desejam possuir tudo o que lhes é mostrado pela propaganda cada vez mais irresistível. Quotidianamente, muitas inovações surgem, que somente podem ser adquiridas por um reduzido número de indivíduos. Embora se reconheça que as possibilidades criadas pelo progresso material, dispendiosas a princípio, findam sendo accessíveis a todos, como ocorreu, por exemplo, com os telefones celulares, rádios de pilha, televisão, vacinas contra diversas doenças, etc e melhoram a qualidade de vida, indistintamente da camada social a que pertença determinado indivíduo, a rapidez com que as coisas que possuímos se tornam obsoletas exerce forte apelo à cobiça e desperta nas mentes a vontade de consegui-las à revelia do que recomenda a lógica do consumo. Essa é uma das principais causas do endividamento crescente dos consumidores, da necessidade de expansão do crédito para assegurar a higidez dos mercados e do aumento da distância que separa os que têm dos que não têm.

 

Outra velocidade de crescimento, bem mais preocupante, nos ameaça (como jamais ocorreu antes na história desta civilização). É a expansão demográfica que acena com a expectativa do surgimento de mais três bilhões e meio de seres humanos a serem alimentados nas próximas quatro décadas (considerando as curvas de crescimento demográfico da ONU que preveem uma população de dez bilhões e meio de terráqueos em 2050) e, é claro, todos desejando os maravilhosos artefatos materiais que a veloz tecnologia do século xxi lhes poderá proporcionar nesse curto prazo.

 

Esses dois fatos reunidos são, por sua vez, responsáveis por outra ameaça tenebrosa, a velocidade do aumento da poluição planetária. Basta imaginarmos o número de sacos plásticos distribuídos gratuitamente por, praticamente, todos os supermercados. Anualmente, circulam, em todo o mundo, entre 500 bilhões a 1 trilhão destes objetos. Mas, a poluição planetária não se limita a sacos de supermercado, sendo bem mais grave do que se supõe. Outras alterações nos mais variados campos da ciência se projetam sobre os costumes, quase que exigindo adaptações sociais de todas as ordens. Porém, no que concerne a este artigo, os desafios citados já são suficientes para nos causar sérias preocupações acerca do futuro imediato.

 

Daí a pergunta que nos assola: Quo vadis Planeta Terra? Jamais, nosso futuro foi tão imprevisível. Todavia, muitos se recusam a alterarem sua forma de pensamento e a abandonarem os redutos de onde, com veemência, defendem idéias à revelia da lógica cristã, mesmo ante fatos irrefutáveis como as conflagrações do Oriente Médio, a fome e o morticínio no continente africano e em muitas outras partes, a crescente violência urbana, o tráfico de drogas e armas e o cinismo e a irresponsabilidade dos políticos. As religiões, que deveriam ensinar seus adeptos a “amarem uns aos outros”- Mateus 23.39, a “não julgarem para não serem julgados”- Mateus 7.1, a reconhecerem sua própria ignorância espiritual (“ainda tenho muito que vos revelar...”João 16.12), nada mais fazem do que agir como o fizeram, no passado, os fariseus que condenaram Jesus, tendo se transformado em donos da verdade divina. Mesmo tendo Jesus curado um cego, alegaram que: “este homem não é de Deus; pois não guarda o sábado”- João 9.16. “este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios”.- Mateus 12.24. Se o mestre aqui voltasse, hoje, provavelmente, seria crucificado novamente... Tal é o fanatismo religioso, pior do que o político. O mesmo fanatismo dos fariseus, hoje, invadiu muitas religiões que chegam a matar em nome de Deus... da mesma forma como eles tentaram apedrejar Jesus.

 

Muitas religiões estão mais intimamente ligadas às posses materiais do que aos ganhos espirituais. Jesus jamais criou nenhuma religião. Apenas nos deixou este ensinamento básico: “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis”- João 13.34. Muitos condenam os outros credos que não o seu próprio, iludidos por sacerdotes que não entenderam a mensagem do Cristo. Apegam-se a frases escritas por seres humanos (e falhos) traduzidas e reinterpretadas inúmeras vezes através dos tempos como se fossem a palavra do próprio Deus que valeu-se de Jesus - e não de livros que sempre existiram – para alterar as tradições religiosas, substituindo o Deus de Abraão pelo Deus do perdão e do amor. Sua mensagem mais clara por poucos foi compreendida. Ele, sendo onipotente, onipresente, onisciente, bom e justo, sacrificou seu próprio filho, fazendo-o ressurgir dos mortos, apenas para nos cientificar da insignificância desta vida à qual temos que nos apegar, mas, sempre conscientes de sua efemeridade.

 

A mensagem de Jesus foi absorvida pela política, justamente, o mal que assolava os Judeus nos dias em que ele viveu e contra o qual se voltou (“mas, como agora dizeis: Vemos; por isso, o vosso pecado permanece.”João 9.41). O apego ao poder político, ao invés da submissão a Deus, também foi o responsável pela supressão das Escrituras da revelação das reencarnações sucessivas. Se colocarmos um leão próximo a uma mulher que carrega no colo o seu bebê, verificaremos que ela fará de tudo, inclusive sacrificar a sua própria vida para salvá-lo, a qualquer preço. Entretanto, as mães que conviveram com Jesus morriam juntamente com seus entes queridos, entoando cânticos ao Senhor, por estarem absolutamente certas da realidade das reencarnações, conforme lhes havia revelado o Cristo. Nenhum cristão que conheceu Jesus tinha medo da morte, pois sabia da transitoriedade desta vida e das bênçãos e da eternidade que os aguardava. Em nossos dias, porém, quem norteia o caminho dos jovens é a matéria: beleza, poder, riqueza e prazer. Não que isso não seja desejável, mas, sim, que isso se submeta, antes, aos valores maiores ensinados por Jesus. No outro extremo contam-se os que crêem que apenas a adesão a determinado credo poderá trazer a salvação às almas terrenas. Assim, restam poucos que, de fato, entendem a mensagem do Mestre. Essa é a principal causa dos males apontados nos primeiros parágrafos deste artigo.

 

As transformações decorrentes da tecnologia, da demografia e da poluição geraram e continuarão a gerar, em futuro bem próximo, cenários jamais antevistos. Mas, as “receitas de bolo” da sociedade para fazerem face aos males hodiernos continuam, praticamente, as mesmas. Isso quando existem receitas. Isso quando não são substituídas por modelos ainda piores. Na maior parte das situações, o que se vê é uma quase indiferença ante catástrofes anunciadas. Que dirá das que ainda estão por vir. O caso das mortes por dengue fala por si mesmo. As milhares de mortes causadas pela violência urbana são quase assimiladas como coisa comum. Quando a morte de um brasileiro ocorre no exterior, então, se procede como se deveria proceder nos casos de todas as outras milhares, quase ignoradas por aqui...  A educação é relegada a segundo plano. O brasileiro que mais se engajou na busca da solução deste problema foi demitido pelo telefone enquanto estava no exterior... Brasileiros que, no passado, por arroubos da juventude, por sonhos utópicos, ou mesmo por ignorância dedicaram-se ao terrorismo e à marginalidade são, hoje, louvados como heróis e assumem as mais altas posições. Ex-assaltantes foram guindados a Ministros pelos dois últimos governantes, assassinos são recompensados monetariamente e elogiados por seus crimes, sequestradores de ontem e de hoje são considerados pessoas ilustres, narcotraficantes responsáveis por grande parte da violência urbana são aliados do governo. Religiosos adoram Marx. Constroem-se monumentos e nomeiam-se vias urbanas para homenagear criminosos confessos. Grande número de famílias acompanha o Big Brother sem se dar conta de que seus filhos jamais considerarão essa fraqueza de caráter como coisa condenável e, sim, como virtude. Afinal, é o exemplo dos pais que norteia os filhos. É a sagração da sem-vergonhice. É a opção pela futilidade da bisbilhotice. Pais sucumbem aos planos sinistros do governo e vacinam suas filhas contra o virus HPV aos nove anos de idade! É o vestibular para o sexo precoce, livre e irresponsável que tem gerado tantos órfãos...

 

Infelizmente, tudo isso não é privilégio nosso. Em muitas outras partes do globo o que se testemunha é similar. Políticos confessam seus crimes menores na vã esperança de esconderem seus crimes maiores... Guerras religiosas dizimam milhares, causando toda a sorte de torturas e privações a populações inteiras sem que os poderosos os condenem (a não ser que sejam inimigos políticos). A incoerência está por toda a parte. Fidel Castro garante a miséria para todos em Cuba, fuzila dezessete mil cubanos por pensarem de outra forma e é adorado como herói. Simultaneamente, Pinochet, que transformou o Chile num grande país, é odiado pelos  mesmos crimes. Crianças deixam-se tatuar e exibem orgulhosamente a imagem de um sadista que fuzilou duzentas pessoas numa tarde (che guevara) comparando-o a Cristo! Fazem-se filmes para  enaltecê-lo! Esses filmes são premiados! Aeronaves (isto é, seus pilotos) disparam armas de alta tecnologia para matarem (sem intenção, é claro!) a pobres criancinhas que, para a sua má sorte, estavam nas proximidades de onde se suspeitava residir um outro terrorista... Jovens explodem-se publicamente, causando outras várias casualidades, na esperança de alcançarem as promessas de Deus... Monges são dizimados por exércitos por defenderem sua independência... Hutus e Tutsies cometem fratricídios (são do mesmo povo e da mesma etnia, mas assassinam um milhão de irmãos) em nome de um ciúme por não terem sido os Hutus os preferidos pelos colonizadores... A ONU e o mundo se calam ante tal crime... A maioria ainda nem sabe que isso existiu. Hitler se torna conhecido, mas Stalin, Mao, Pol Pot (do Camboja) e os crimes de Ruanda - que causaram o mesmo número de mortes - não... A China é apontada como um país de sucesso, mesmo ante o imperialismo contra seus cidadãos. O que conta são as contas...

 

Até onde ainda iremos chegar? Até quando os homens acusarão Jesus de ter fundado uma só religião, fazendo com que seus ensinamentos sejam ignorados pelas demais? Quem monopoliza os ensinamentos de Jesus? Quem patenteou seus mandamentos? Quem pretende falar por sua boca? Quem afirma que Jesus não pode estar presente no coração de qualquer pessoa à revelia de seu credo? Esses que se cuidem, pois serão culpados do pior dos crimes! A dissolução da sociedade organizada que já desponta no horizonte dos que guardam em seus corações o amor pregado pelo Mestre e qualquer dose de caridade, sabedoria e responsabilidade.

 

 

“Se o mundo vos aborrece,

sabei que, primeiro do que a

vós, me aborreceu a mim”.

João 15. 18.

Ibatan

  

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