Quinto Erro

Confundir separação entre Igreja e Estado com divórcio entre Religião e Política

 

 

 

"Os bons são tão capazes de superar problemas para descobrirem o  que é correto quanto os maus para saberem o que lhes trará lucro". (Confúcio)

“Em decorrência das más qualidades da era de Kali... as cidades serão dominadas por ladrões, os Vedas serão contaminados por interpretações especulativas de ateístas, os líderes políticos chegarão quase a consumir os cidadãos, e os ditos sacerdotes e intelectuais se entregarão aos ditames do estômago e órgãos genitais”. (Srimad Bhagavatam Cap. 3, Canto 12)

 

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urante muitos séculos, a Igreja esteve intimamente ligada ao Estado. Em muitos locais, o chefe religioso era também o chefe político. Assim, quase sempre, a influência exercida pelos líderes religiosos foi preponderante nas decisões a serem tomadas. Basta lembrarmos as lutas entre gregos e persas, quando o oráculo de Delfos previu que os gregos seriam salvos por “muralhas de madeira” (navios), os textos de Homero acerca da guerra de Tróia, o poder temporal dos Papas que legitimavam Chefes de Estado, ou mesmo as guerras entre Árabes e Judeus, para compreendermos o peso que as religiões tiveram na política. Ou melhor dizendo, a influência que os líderes religiosos exerciam sobre as decisões políticas... Infelizmente, os ensinamentos religiosos quase sempre foram esquecidos quando interesses terrenos se fizeram presentes. Mas, os líderes religiosos sempre aludiram a esses ensinamentos, mesmo quando justificando ações consideradas pouco religiosas e, até mesmo, imorais. A aceitação papal da escravidão, a Santa Inquisição - destinada a expropriar bens dos judeus, a queima de bruxas, a venda de indulgências, o coroamento dos reis, a censura etc. revelam o poder que alguns credos já exerceram nas coisas da polis. 

As repercussões desses fatos fizeram com que a vontade popular, gradativamente, pusesse fim à ação oficializada das Igrejas junto ao Estado. As ditas religiões oficiais desapareceram na maioria do planeta. Embora ainda se possam encontrar líderes religiosos na política, eles lá atuam como membros de partidos políticos, ao invés de serem os representantes do credo predominante. Mas, a solução foi passar de um extremo a outro. Sempre que o pêndulo atinge o fim de seu curso, é necessário efetuar-se algum tipo de ação para evitar que ele retorne ao limite oposto.  Como tal ação não ocorreu, o outro extremo foi alcançado. Foi isso o que ocorreu com a separação entre a Igreja e o Estado. Ela se fez ao custo da separação entre a Religião e a Política.

Em nossos dias, todos curvam-se ao “Deus Mercado”, guiados pela busca do lucro máximo que foi tornado “onipresente” pela Internet, “onisciente” pela globalização e “onipotente” pelo mundo unipolar. Quanto mais lucros melhor. O crime também propicia lucros... Talvez os maiores... A mídia, no afã de maiores ganhos, atende aos mais inconfessáveis desejos da massa ignara. O correto é apresentar resultados, mesmo que inverídicos, desde que os bytes que representam o dinheiro de nosso tempo não se evadam ante notícias pouco alvissareiras para os investidores. 

Curvam-se as políticas aos interesses que remuneram quem possua o capital material e intelectual, por vezes em detrimento da própria vida humana. O acúmulo de poucos, em muitos casos, responde pela miséria de muitos. Deus só interessa quando dá lucro... Proliferam empresários religiosos de sucesso e Igrejas. A velocidade com que surgem é, no mínimo, surpreendente. 

Novas técnicas de comunicação preterem as antigas liturgias. Os rituais mais populares de uma religião são de pronto adotados por outras, visando atrair os seus adeptos. O que importa é a quantidade e não a qualidade. Tentam os religiosos recuperar o poder político perdido com a separação entre a Igreja e o Estado. 

O esfacelamento do poder político da religião oficial produziu um vazio de poder imediatamente preenchido por outros grupos. Infelizmente, seus interesses voltam-se mais para o crescimento da importância política de seus credos do que para a crítica religiosa dos textos legislativos.

Antes, orava-se nas escolas a oração da religião oficial. Agora, em nome da liberdade religiosa, pouco se ensina aos jovens acerca dos muitos nomes de Deus.  Os apelos aos vícios, todavia, estão por toda a parte. De caretas ou conservadores rotulam-se os que não concordam com tal estado de coisas. De progressistas são chamados os que confrontam os valores tradicionais, algumas vezes movidos por boas intenções e outras por interesses inconfessáveis. Também a fragmentação do poder político religioso reduziu a sua capacidade de influir no comportamento moral da sociedade que foi, pouco a pouco, tornando-se mais permissiva, cedendo aos apelos do "marketing" materialista, priorizando a busca do prazer material em detrimento da salvação espiritual.

Ao invés de se buscar que as Igrejas influenciassem os políticos a legislarem segundo os princípios religiosos, corrigindo os erros por elas cometidos ao longo de séculos, a radical solução adotada foi o seu total divórcio do Estado. Isso, se por um lado evitou a discriminação das religiões e dos religiosos não oficiais, por outro, contribuiu para afastar o sentimento religioso da Política. Ora, a Política nada mais é que a condução das coisas da polis, da cidade.  Essa condução, que nas democracias é implementada principalmente pelos processos legislativo e judiciário, não deveria ser levada a efeito sem que sofresse os apelos de atributos religiosos tais como a caridade, a solidariedade e a perseverança no favorecimento do progresso de nossos irmãos. Legislar e julgar à revelia dos ensinamentos religiosos contribui para afastar a polis da idéia de Deus. Assim, a polis sem Deus parece superar a polis religiosa.

É certo que Igreja e Estado têm que permanecer separados, mas tal não é o caso da Religião e da Política. A Política regula a forma como o poder material é exercido sobre os cidadãos da polis (cidade). As Religiões fazem o mesmo com relação ao poder espiritual. Seria importante que o poder espiritual influenciasse o poder material. Isso aumentaria o equilíbrio das decisões políticas e propiciaria certamente maior equanimidade na repartição das riquezas de um país. Mas, os políticos são oriundos do povo e possuem diversificados graus de cultura. A maioria deles não dá as religiões a importância devida, embora não raro delas se beneficiem, usando-as como degraus políticos. Vale acrescentar que esse reduzido interesse pelas coisas religiosas origina-se na falta de lógica da maioria das religiões e ao abismo crescente que separa ciência e religião.

ibatan

 

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