Para Meditar... 

 

 

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uitos falam dos direitos dos seres humanos. Poucos pensam nos deveres dos seres humanos. Muitos confundem o fato dos direitos serem iguais com a inverdade dos seres humanos serem iguais. Muitos confundem a igualdade de oportunidades com a igualdade de merecimento. Poucos recordam que os seres humanos são todos desiguais quaisquer que sejam os parâmetros considerados. Muitos se consideram merecedores daquilo a que ainda não fizeram jus. Muitos reivindicam a posse de bens materiais (que, na grande maioria, são fruto de esforço pessoal) sem que nada tenham feito por merecê-los. Muitos agem irresponsavelmente, criando a própria miséria ou a dos filhos que não deveriam ter gerado e exigindo que a sociedade remova tal fardo de seus ombros. Muitos políticos (e religiões) preferem alimentar essa miséria em busca de votos (e adeptos) ao invés de trabalharem para a sua erradicação.

Poucos aceitam que os seres humanos têm que ser tratados desigualmente na mesma medida em que se desigualam, assegurados os seus direitos e oportunidades. Muitos confundem a democracia (a representatividade do povo) com a anarquia (o poder de todos). Poucos percebem que, onde a maioria é ignara e a democracia vige, a corrupção abunda ainda mais que nas ditaduras.

Nem todos percebem que uma democracia, ainda que corrupta, atua como freio à ocorrência de revoluções sociais abruptas. Mas, quanto maior a antiguidade e a intensidade da corrupção, maior violência é necessário empregar-se para erradicá-la. 

Muitos agem como se não soubessem que a capacidade, a oportunidade e o trabalho produzem a riqueza material e que a sabedoria, a renúncia e o amor geram a riqueza espiritual. Muitos pensam que a representatividade democrática lhes assegura o conforto do distanciamento dos fatos políticos quotidianos. Muitos atribuem a culpa pelos seus males tão somente ao governo ou aos seus semelhantes.

Cada vez mais seres humanos tomam conhecimento de fatos bons e maus que ocorrem com outros seres humanos. Cada vez menos seres humanos são capazes de interpretar esses fatos que lhes são apresentados sob a ótica de interesses de todas as ordens.

Poucos percebem que as democracias dependem da participação intensa de todos. Alguns sabem que as revoluções sociais somente ocorrem quando finda toda a esperança dos mais desvalidos. No meio do caminho, o surgimento de idéias e grupos extremados prolifera e toma corpo. Por isso, os poderosos monitoram a esperança que permeia esses desvalidos e, quando a percebem desvanecida, os alimentam com promessas que nem sempre pretendem cumprir.

Muitos condenam as atitudes de outrem tomadas em defesa de seus interesses (deles) como se também não defendêssemos os nossos. Muitos, ao invés de imitarem, criticam os atos de sucesso de outrem e os classificam como eivados de intenções maléficas voltadas contra alguém ou algo, como se fossem partes de uma conspiração. Isso é condenável. Por outro lado, alguns se valem dessa realidade para, falaciosamente, ridicularizarem algumas denúncias verídicas, lançando-as de pronto (antes que tomem corpo) na vala comum da dita teoria da conspiração. 

Poucos aprendem com as derrotas. Muitos exigem facilidades. Poucos superam dificuldades. Quase todos culpam os governos. Poucos percebem que a verdadeira estratégia de crescimento de um povo é fazer com que nossos filhos sejam pessoas melhores do que nós mesmos

Poucos conhecem seu porto de destino. Por isso, os ventos atuais a muito poucos parecem favoráveis. Mas, quase todos pensam conhecê-lo... Quase todos acreditam que vão morrer um dia.

Aquilo em que cremos não é a verdade, mas a crença. Os homens não agem baseados na verdade, mas na versão em que crêem. Cada fato tem muitas versões. Ignorante é o que rejeita todas menos uma. A ignorância gera o fanatismo.

Tendemos a construir a verdade que queremos sobre alicerces nem sempre verídicos. E muitos residimos longo tempo nessas construções, certos de sua solidez. Assim, deixamos de ser objetivos quanto a nossos objetivos. Muitos de nós ansiamos mais a vingança que a solução dos problemas.  Muitos de nós aceitamos conviver com os males causados por esses problemas, desde que assim possamos punir os que pensamos serem culpados pela sua criação, condenando sem conhecer todos os fatos, assumindo o papel de Deus.

Quanto menor a abrangência do conhecimento, maior a gênese das soluções. E com tantas disponíveis, quem não as adota é no mínimo insensível. Porém, quando a cultura nos põe a par de todos os fatores relacionados à decisão, poucos são capazes de apontar o caminho adequado. Os políticos muito se valem dessa limitação popular, que possibilita o populismo e a demagogia.

Os Estados diferem entre si tanto quanto os seres humanos. Os organismos internacionais lhes cobrem com a capa da igualdade de direitos. A realidade dessa hipocrisia somente torna-se visível, na prática, quando nos inteiramos como são conduzidas as relações internacionais. 

O governo ideal é a democracia para os que acompanham o fato político e atuam para aperfeiçoá-lo; a ditadura para os criminosos e desinteressados pela legislatura e a anarquia para os que são capazes de empreender o bem comum.

A evolução demográfica em descompasso com a evolução espiritual somente pode trazer maus resultados. O progresso material não depende do progresso espiritual, porém, este é imprescindível ao correto emprego das benesses daquele. O progresso material sem a contrapartida do progresso espiritual resulta na concentração do poder nas mãos de poucos, qualquer que seja a orientação política adotada. O poder concentrado favorece a corrupção, amplia a miséria, amordaça a crítica, controla as mentes e eterniza-se no mando.

ibatan

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