O Código Da Vinci à luz da espiritualidade

 

  

 

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 imenso sucesso do livro “O Código Da Vinci” de Dan Brown revela o quanto as pessoas se interessam pela busca do Graal. Esse tema sempre se revestiu de um ar de magia, impregnando muitas mentes com o sonho de alcançar as benesses inimagináveis que o cálice sagrado conferiria a quem o encontrasse, como se um simples objeto material pudesse conferir a seu descobridor qualquer mérito além do de resgatar parte da verdade acerca das versões históricas oficiais.

Esse aspecto de sobrenaturalidade que matiza de mistério o assunto é conseqüência do valor atribuído à vida material pela maioria das religiões ocidentais. A idéia de uma única vida, vindo depois o juízo, influencia sobremaneira o modo como a maioria desses religiosos idealiza vivê-la e a forma como compreendem suas provações terrenas, fazendo com que qualquer mecanismo capaz de aumentar a sua quantidade de poder cresça em importância. Encontrar o Graal significaria obter a forma de superar suas provas e de conseguir melhorar sobremaneira a qualidade de vida, seja por meio da obtenção de riquezas materiais, seja pelo poder que estaria embutido neste objeto.

O livro sugere que o segredo do graal seria, na verdade, o “sangue real”. Cristo teria constituído família e deixado filhos, que seriam seus legítimos herdeiros e que este segredo teria sido preservado por uma sociedade secreta – O Priorado do Sião - à qual teria pertencido Leonardo Da Vinci. Novamente, a incompreensão do que seja a ancestralidade amplifica o significado do fato, a tal ponto do segredo valer mais do que muitas vidas humanas. Isso, porque a prova de que Cristo tivesse gerado filhos poderia significar que fosse considerado que a eles e a seus descendentes caberia o trono que, durante séculos, pertenceu e ainda pertence aos Papas, tornando ilegítimo o poder por eles exercido, poder este que influenciou consideravelmente a história de nosso planeta.

A busca pelo Graal custou milhões de vidas humanas e cobriu de males a nossa Terra. Basta relembrarmos os horrores das Cruzadas para concordarmos com essa assertiva. E, mesmo assim, o valor desse cobiçado cálice (caso o Graal fosse um objeto material) seria apenas o de um artefato de singular raridade, valor este aumentado também pelos seus aspectos históricos, místicos e religiosos. Conforme mencionado, caso o segredo do Graal relacione-se, como sugere o livro “O Código Da Vinci”, ao casamento de Cristo com Maria Madalena, as conseqüências de ordem religiosa e políticas deste fato seriam bastante significativas por afetarem a legitimidade de Constantino o organizador da Igreja Católica (Universal) Apostólica Romana e o seu posterior legado aos Papas.

Sendo o Sagrado Imperador Romano, Constantino “O Grande” legalizou e imprimiu sua marca na religião Católica, unindo diversos cultos já existentes, como o Mitraísmo, o culto ao Sol Invictus (do qual ele era o sumo pontífice) e crenças da Pérsia e da Síria. Em 331 D.C., determinou que fossem destruídas todas as obras que contradissessem a nova religião e ordenou que fossem escritas versões oficiais do Novo Testamento de acordo com o pensamento dos mestres da Igreja e que fossem proibidas as demais. Substituiu o sábado judeu, dia em que os tribunais deviam fechar, pelo domingo – dia do sol – em homenagem ao Sol Invictus, já que era o chefe desta religião. Substituiu, também, o dia da comemoração do nascimento de Jesus Cristo de seis de janeiro (que virou dia de Reis) pelo dia vinte e cinco de dezembro, dia de Mitra.

Muito tempo depois, no século VII, a Igreja Romana apresentou um documento conhecido como “a doação de Constantino”, alegando que teria sido efetuada por ele pouco antes de sua morte, transferindo a ela todo o poder do Sagrado Império Romano, incluindo o direito de selecionar e destronar monarcas. Esse documento confirmava que os Papas eram os legítimos representantes de Deus na Terra. O documento foi imediatamente posto em prática pela coroação de Pepino, em 751 D.C. como primeiro rei da França.

O surgimento de parentes de Jesus poderia afetar todos os atos decretados por meio de bulas papais e  todas as coroações de Reis levadas a efeito durante séculos, as quais poderiam ter sua legitimidade contestada, em virtude do direito dos Papas ter base na “doação de Constantino” que, assim, nada teria a legar, já que ele não seria o legítimo vogal de Deus na Terra. Isso também tornaria inválidas inúmeras leis e afetaria muitos fatos históricos de extrema importância cujos efeitos perduram até nossos dias.

Toda a questão relaciona-se ao conceito errôneo do que seja a ancestralidade.  É ele que contribui para criar o quadro de perplexidade que domina as mentes cristãs ao imaginarem a possibilidade de que Cristo teria deixado herdeiros. É que a ignorância das peculiaridades do mundo espiritual acarreta em grande número de mentes o apego por suas árvores genealógicas. Muitos crêem que o parentesco espiritual possui os mesmos liames que caracterizam o parentesco material. Entretanto, espíritos não têm parentes, pois todos são irmãos, sendo filhos do Criador. Os espíritos diferenciam-se não pelo DNA, mas sim pela evolução espiritual. A única analogia que se poderia aplicar ao considerarmos os laços que unem os espíritos seria o grau de afinidade espiritual. Espíritos de auras semelhantes se atraem e espíritos de auras distintas como que se repelem. Assim, os consangüíneos de Cristo, caso existam, não podem ser considerados necessariamente seus parentes na acepção espiritual que é a que interessa no caso.

A verdade é que não temos ancestrais espirituais. O fato de encarnarmos em uma determinada família não significa que estejamos ligados a ela. Nada sabemos de nossas vidas anteriores. Elas podem ter sido vividas em outras partes do planeta muito distantes de onde agora vivemos. Tanto nós quanto nossos pais podemos ter sido seres humanos totalmente alheios ao local e à família na qual estamos ora encarnados. A raça à qual pertencemos pode não ser a raça a que pertencíamos em existência passada. Podemos ter sido javaneses e, agora, sermos mexicanos, brasileiros ou ter qualquer outra nacionalidade. Podemos ter sido amarelos na vida anterior e negros, brancos ou vermelhos nesta.

A reunião de espíritos em uma mesma família dá-se muito mais por aspectos relacionados à lei de causa e efeito do que pelo parentesco existente na encarnação anterior. As reencarnações em determinada família podem ter variados propósitos, como por exemplo:

Em função do amor que devotam a todos indistintamente, espíritos de alto grau de evolução oferecem-se para encarnar junto àqueles a quem procurarão auxiliar. Filhos de hoje podem ter sido avós do passado. Esposas ou maridos devotados podem ter sido espíritos aos quais auxiliamos de alguma forma em vidas passadas. As famílias funcionam como enlace que reúne espíritos que, por alguma razão, devem permanecer juntos. Em suma, a ancestralidade genética nada tem a ver com a ancestralidade espiritual.

A importância ora atribuída à genética é filha da crença em “apenas uma vida vindo depois o juízo”. Ao crermos em uma vida apenas, é claro que tendemos a lhe atribuir maior importância do que quando a consideramos somente uma passagem que se repete a intervalos regulares. Assim, falhar nesta existência adquire um caráter de perda irreparável, de beco sem saída, de situação sem esperança, vindo em seguida o juízo final e irrevogável. Pensando dessa forma, muitos decidem tirar o máximo proveito dessa única vida, recorrendo a quaisquer expedientes que lhes assegurem tal objetivo. Exemplo disso foi o próprio Imperador Constantino, que solicitou ser batizado apenas pouco antes de sua morte, para que pudesse ser perdoado pelos crimes que intentava cometer (e que foram muitos).

Outro aspecto negativo causado pela descrença na reencarnação é o racismo. Se vivemos apenas uma vida, é claro que possuímos apenas uma raça. Essa idéia gera a discriminação racial que tantos males causou e causa a nosso planeta. Analisemos um caso clássico de ódio racial: o anti-semitismo.  A crença dos judeus de que são o povo escolhido por Deus não se sustenta diante da idéia da reencarnação. Ela nos mostra que eles “foram” escolhidos por Deus para que servissem como modelo para outros povos. Todavia, os judeus daqueles tempos sempre foram judeus? De onde eram provenientes ao encarnarem naquelas plagas? A que raça pertenceram em vidas anteriores os que hoje são judeus? Qual a atual raça dos judeus que foram escolhidos por Deus? Fica claro, que com a aceitação da idéia de vidas múltiplas, não faz sentido qualquer prevenção contra judeus ou qualquer outra raça, já que não estamos certos de que não pertencemos a ela em vida passada ou que não pertenceremos a ela em vidas futuras.

Se Cristo desposou Maria Madalena e com ela teve filhos, seus descendentes genéticos estarão espiritualmente ligados a ele de modo diferente do que todos nós estamos como herdeiros de seu legado? É claro que não. Perderia a Igreja Católica a sua legitimidade pelo fato de Cristo ter tido filhos? Também é claro que não, pois o seu papel foi e sempre será o de propagar as idéias do Mestre e o trono do Papa não pode ser considerado ilegítimo pela simples aceitação desta idéia. Isso, porque a Igreja Católica desempenhou no passado não somente o papel de uma instituição religiosa, mas, o de uma instituição política e, principalmente, jurídica da mais alta categoria. E esse papel possui aspecto consuetudinário que o torna legitimo mesmo ante o surgimento de possíveis parentes de Jesus. Tanto isso é verdade, que esses atos continuam a ter legitimidade mesmo já tendo sido provado que a “doação de Constantino” é um documento forjado, já que transcreve trechos da Vulgata, edição da Bíblia em latim que não existia enquanto viveu aquele Imperador.

Outra faceta do Código Da Vinci é a crítica à visão bíblica do papel da mulher no Mundo. O livro sugere a existência de uma conspiração para degradar o papel representado pela mulher na sociedade. A concepção do sexo como pecado que tantos males tem gerado ao planeta e ao Brasil (A religião no campo psicossocial) é refutada no livro, lançada a acusação sobre os que redigiram as escrituras.

As mulheres foram durante milênios segregadas com o estigma do pecado original. O seu alheamento das decisões políticas resultou no aumento da violência planetária. Isso, porque essas decisões sempre sintetizaram o pensamento masculino, endurecendo o seu teor. A nova faceta atribuída a Maria Madalena pelo Código DaVinci, não só redime as mulheres desse estigma, como também as elevam a uma posição diametralmente oposta, pelo reconhecimento de sua hierarquia superior em relação aos demais Apóstolos. Afinal, foi para Maria Madalena que Cristo apareceu pela primeira vez após a ressurreição. Foi a Maria Madalena que Cristo pediu que difundisse a mensagem da promessa da vida eterna e a realidade da reencarnação. Mas, o preconceito masculino presente nos sistemas judáico e mesmo helênico mais uma vez se fez presente com a versão oficial do “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja”.

A autoridade do Papado repousa em Pedro. O reconhecimento da predileção de Jesus por Maria em detrimento dos Apóstolos, certamente afetaria essa autoridade. A depreciação do papel desempenhado por Maria Madalena junto a Jesus foi oficializada no ano 591 D.C. pelo Papa Gregório, o Grande. Segundo suas palavras:

“Aquela que Lucas chama de pecadora e que João chama de Maria (de Betânia) acreditamos ser a Maria de quem, segundo Marcos, Jesus  expulsou sete demônios”.

Essas palavras proferidas num sermão do Papa transformaram a discípula preferida de Jesus, que possuía status superior a todos os apóstolos, na mulher pecadora redimida, relegando o seu papel a um plano secundário ao ocupado por Pedro, conforme sempre foi conveniente à Igreja Católica. Ninguém conseguiu até hoje provar a falsidade ou a veracidade de tais fatos, porém urge rever o papel das mulheres na sociedade segundo a visão da Igreja. Não faz o menor sentido que o principio gerador da vida humana no planeta terra não seja reconhecido como coisa sagrada.

Sexo não pode ser pecado já que é  resultado da vontade do Criador. É necessário que a Igreja reconheça esse fato. A hipocrisia da condenação do sexo reflete-se nos próprios escândalos que o celibato gera como atitude contrária à natureza humana a denegrir a imagem das mulheres e da Igreja e a resultar na prática de milhares de crimes sexuais contra inocentes durante tantos séculos. A degradação do papel das mulheres como iguais dos homens e o alheamento da Igreja das coisas do sexo apenas maus resultados tem produzido. A falta de lógica de tal posicionamento tem afastado muitos das coisas de Deus, ocasionando efeito diametralmente oposto ao que a Igreja buscava obter com a condenação do sexo. 

Por amor à lógica, reflitamos que todos fomos gerados pelo sexo e que Maria, a mãe de Jesus, já estava grávida quando lhe foi anunciado por um espírito superior que o óvulo fecundado que guardava em seu útero destinava-se à reencarnação do maior dentre todos os que aqui já encarnaram. Reconheçamos também que ela por isso não pecou, assim como não teria Jesus pecado se tivesse, de fato, casado com Maria Madalena ou se tivesse deixado herdeiros. Reconheçamos que as mães, as esposas e as filhas não são inferiores em nada aos pais, maridos e filhos. Entendamos que todos são espíritos reencarnados  Irmãos e iguais portanto, já que espíritos superiores não têm sexo (por isso mesmo ninguém determinou ainda o sexo dos anjos). Entendamos que a votação do Concílio de Nicéia, apesar de seu resultado de 318 a 2, ainda reflete uma opinião humana e portanto passível de erro. O fato de Jesus ter sido um homem encarnado em nada afeta o caráter divino de sua sublime missão redentora. Apenas espelha a realidade das reencarnações missionárias.

O Código Da Vinci é apenas um livro de ficção, mas seu inigualável sucesso pode ser o estopim de uma nova era na qual a Igreja reconheça a igualdade de homens e mulheres e considere que a abordagem de assuntos relacionados a sexo já, de muito, constitui tema inadiável, em face das cada vez mais graves repercussões sociais que fustigam a família cristã e os fieis, por estarem carentes de interpretação pragmática e orientação espiritual acerca da inegável realidade do papel do sexo em suas vidas.

 

ibatan

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