As Leis Básicas do poder

 

                                                         O egoísmo é filho da dor. A fé é a melhor forma de combater o egoísmo. A fé elimina todas as dores.

 

      

E

m alguma floresta tropical, há muitos milênios, dizem ter começado a saga do homo sapiens. Não discutiremos essa afirmação, pois, de qualquer forma, ela não interfere no tema que pretendemos abordar – o comportamento social de nossa espécie. Mas, que o homem moderno tenha surgido em alguma floresta tropical é bastante lógico, já que, desconhecendo o fogo, seria difícil a sua sobrevivência em latitudes mais elevadas.

Mesmo nada sabendo, o Homem, como todos os outros animais, conheceu de pronto o grande fator determinante de seu comportamento – A DOR. Foi a partir dela que surgiu a cobiça pelo poder terreno, causa de quase todos os infortúnios que assolam o planeta. Os seres humanos convivem com os meandros do poder terreno. Eles respiram o ar rarefeito pelos eflúvios malignos que emanam dessa busca insana por maior capacidade de influenciar o meio ambiente e produzir o efeito desejado no momento preciso. Mesmo os que não sofrem grandes padecimentos em termos de dor física procuram melhores quinhões de poder, ao menos para assegurarem a manutenção de um status quo que lhes favorece. Outros que sofrem são sempre assediados com a idéia de superação de suas dificuldades no mais breve tempo possível e, dependendo de seu entendimento do que é a vida no planeta Terra, podem recorrer a meios considerados como ilícitos pela sociedade em sua obsessão por amenizarem seu padecimento. Paradoxalmente, aqueles que maior quantidade de poder material acumulam são os que mais contribuem para reduzir a quantidade de poder daqueles a quem deveriam tratar como irmãos.

Para melhor compreendermos tal cenário negativo que atribula a vida no planeta, é necessário que recordemos os fatores básicos que regulam as atividades humanas na vida em comunidade e que impelem os seres humanos a essa luta insana. Tão logo surgiu o primeiro ser humano, ele pode perceber que estava condenado a sofrer as diversas gradações da dor que podiam variar em extensa gama, desde o mais penoso sofrimento até a mais deliciosa sensação de prazer. Lógica e naturalmente, passaram os indivíduos a buscar o prazer e a evitar os sofrimentos, submetendo-se à lei do menor esforço, que viria a lhes apontar o caminho do egoísmo como cautelosa forma de garantirem a parcela de poder necessária a que assegurassem a conquista do prazer desejado e evitassem ao máximo a dor, mesmo ao custo do sofrimento alheio.

Dor e prazer alternam-se ao longo da existência de todos os seres vivos, reduzindo ou elevando a qualidade de vida e marcando o comportamento e o inter-relacionamento das diversas espécies. Entre os animais ditos racionais, os meandros dessa dicotomia exercem papel decisivo, influenciando o comportamento grupal. A busca pelo prazer e o repúdio a qualquer tipo de dor impregnam os fatores que definem os mecanismos sociais, refletindo-se em quase todas as atividades humanas. Seus rastros podem ser percebidos por toda a parte, seja nas formas de governo, nas leis, nas religiões, nos usos e costumes, na cultura dos povos etc.

 A dor e o prazer são os tiranos que governam nossas vidas. Em todos os momentos, os indivíduos situam-se em determinado ponto de uma escala temporal de dor e prazer cujos extremos inferior e superior são, respectivamente, a dor mais crucial e o êxtase supremo. Neste ensaio, mensuraremos essas sensações por meio de uma variável à qual chamaremos de quantidade de dor ou prazer (QDP).

Sempre que essa variável atinge valores inferiores às nossas expectativas, entramos numa espécie de desequilíbrio emocional e passamos imediatamente a conceber uma forma de alterarmos, o mais rapidamente possível, nossa posição nessa escala, de modo a que ela passe a traduzir, em futuro breve, o que esperávamos ter obtido naquele instante. Essa reação, na maioria dos casos é instintiva. Ela decorre da lei do menor esforço que atua sobre todos os seres vivos neste planeta.  Ela também responde pela existência dos corolários dessa lei. Alguns dos mais conhecidos são: o instinto de conservação, a tendência à inércia que julgamos prazerosa e a lei da ação e reação. Sempre que visualizamos a possibilidade da redução de nossa QDP tendemos a impedir que isso ocorra. Analogamente, reagimos prazerosamente e procuramos não intervir quando percebemos a iminência de que ela venha a assumir valor mais elevado na escala.  É oportuno ressaltar que a aplicação da lei da ação e reação no mundo espiritual denomina-se lei de causa e efeito, também chamada de lei do retorno, que expressa a justiça divina, responsável pelas diferenciações existentes nas condições de vida dos seres humanos e para a eliminação das quais espera-se que dediquemos esforços construtivos ao longo de nossas vidas.

A figura 1 exibe um gráfico que será adotado para expressar as variações das QDP. O eixo das ordenadas (vertical) quantifica as gradações de dor e prazer e o das abscissas (eixo horizontal) o momento no qual isso ocorre.

 

Figura 1

 

A curva AB mostra nossas variações temporais de QDP. No instante t1, o indivíduo cujas QDP estão traduzidas no diagrama possui situação mais prazerosa (A=QDP1) do que no instante t2 (B=QDP2).

 Nossas expectativas influenciam o julgamento que fazemos a todo instante do posicionamento que ocupamos no gráfico das gradações de dor e de prazer. A figura 2 expressa tal afirmativa. Nela verificamos que no ponto A experimentamos uma sensação mais prazerosa (QDP1) do que a que esperávamos nessa ocasião (ponto B, com expectativa = QDP2) e, por isso, julgamo-nos mais felizes.

 

 

Figura 2

 

A amplitude da escala onde se medem as gradações de dor e prazer (eixo vertical) é, entretanto, restrita a determinado indivíduo, não se prestando a comparações entre dois seres humanos, em face de ela ser conseqüência de suas experiências de vida (incluindo as vidas anteriores das quais, em geral, não nos recordamos). Por exemplo, aqueles que sempre sofreram a mais profunda dor física, jamais tendo experimentado qualquer conforto, conhecerão apenas as porções inferiores da escala e poderão considerar prazerosas situações consideradas por outros como torturantes.

 

 

Figura 3

A figura 3 especifica essa assertiva. Nela estão mostradas as amplitudes das escalas onde são medidas as gradações de dor e prazer de dois indivíduos. O primeiro deles apresenta maior amplitude entre seus QDP máximo e mínimo referentes à sua melhor esperança de prazer e à sua pior expectativa de sofrimento. Isso ocorre, provavelmente, por ter essa pessoa experimentado maiores prazeres e menores dores que a outra em suas diversas experiências de vida. Tendo padecido mais, o segundo indivíduo avalia sua quantidade de dor e prazer por meio de uma escala bem mais reduzida em amplitude.

Esse poderia ser o caso de um cego de nascença, acostumado a uma vida infinitamente menos atraente que a do primeiro indivíduo, cujas possibilidades são apenas por ele imaginadas e não sentidas. Dessa forma, paradoxalmente, suas possibilidades de ser feliz podem ser até superiores às do primeiro individuo, caso não seja influenciado por pensamentos negativos que estimulem nele o sentimento de inferioridade pela sua incapacidade de enxergar. Tal situação, embora difícil de aceitar por parte de quem possui visão perfeita, pode ser mais bem compreendida pela afirmativa que é muito mais fácil melhorar uma péssima situação do que uma ótima.

Assim, as experiências de vida alteram as expectativas desempenhando papel preponderante na forma como reagimos às diversas gradações de dor ou prazer. Também nossa memória as influencia, fazendo com que a escala das ordenadas varie em sua amplitude. Quem conhece prazeres intensos julga-se sempre infeliz quando submetido a condições consideradas normais por outros. É que a escala do eixo das ordenadas de seu gráfico atinge valores bem maiores do que as escalas que medem as gradações dos demais indivíduos, aumentando a capacidade de variação das QDP.  Esse é o caso dos viciados em drogas.

A figura 4 registra a atuação de nossas expectativas nas situações que consideramos confortáveis, onde, quase sempre, uma sensação de tranqüilidade invade o nosso ego (pontos A e B). Nela, em um determinado instante t1, esperávamos estar no ponto C, sujeitos a uma quantidade de dor ou prazer igual a QDP1. Porém, ocupamos o ponto A, acima de nossas expectativas, com valor igual a QDP2.  Em outro instante t2, no ponto B, nossa QDP4, apesar de inferior à dos pontos A e C, ainda é superior às nossas expectativas (ponto D, com QDP3) e uma sensação de conforto nos domina. 

 

 

Figura 4

 

Estes gráficos nos auxiliam a melhor compreendermos os mecanismos que regem nosso estado de animo em função da quantidade de dor ou prazer a que estamos submetidos e tais mecanismos podem ser traduzidos em diversas leis:

Primeira Lei: Tanto o nosso conforto espiritual quanto o material independem das condições ambientais a que estamos submetidos num dado instante.

Essa lei explica como diferentes indivíduos com diferentes expectativas podem estar equilibrados em bastante diferentes posições da escala. A educação desempenha importante papel nesse mister. Normalmente, estamos felizes sempre que nossa posição na escala é superior ao que esperávamos. Isso pode explicar porque alguns indivíduos estão sempre infelizes ou sempre felizes e porque, quase sempre, é possível ser feliz em todos os instantes. Explica também porque riqueza nem sempre traz felicidade.

Pela análise do que foi explicado até este ponto, concluímos que somente poderíamos comparar as agruras de nossos sofrimentos ou a intensidade de nossa felicidade com as agruras e felicidade de outros, caso conhecêssemos a amplitude da escala onde mensuram suas gradações de dor e prazer.

Segunda lei: Não é possível comparar-se o sofrimento a que diferentes indivíduos submetem-se ante as mesmas provações.

A figura 5, analogamente, retrata as situações de desconforto ou insegurança. Tanto no instante t1, como no t2, estamos com QDPs relativas aos pontos A e B, inferiores às nossas expectativas  em C e D.  O ponto B possui QDP mais elevada do que o ponto A, mas ambas as situações refletem infelicidade.

 

 

Figura 5

O leitor já deve ter percebido que o deslocamento das curvas das variações temporais das QDP (que passaremos a chamar apenas de curva sensorial) para cima nesse diagrama demanda aumentarmos a quantidade do poder possuído por nós num dado instante. Esse poder tanto pode ser material como espiritual. Mas, ressalte-se que possuem diferentes eficácias em sua capacidade de provocarem deslocamentos nessas curvas. 

O deslocamento da curva sensorial para cima por meio do poder espiritual pode ser conseguido por meio do aumento do grau de evolução espiritual do indivíduo. Esse deslocamento sempre é possível, dependendo de nosso esforço e de nosso livre arbítrio. Aliás, é o que se espera de um ciclo encarnatório. 

Em nosso estudo, a expressão poder espiritual deve ser visualizada não somente pela sua capacidade de produzir o efeito desejado, mas também pela sua capacidade de não deixarmos que situações adversas nos tornem infelizes e pela ampliação de nossas alternativas de obtermos prazer. Por exemplo, dependendo de sua evolução espiritual, indivíduos podem sentir prazer na simples audição de determinadas melodias que lhes influenciam o pensamento de modo agradável. Quase todos os católicos sentem-se em paz ao escutarem a Ave-Maria.

Com essa observação, podemos concluir que a evolução espiritual também pode aumentar nossa felicidade não pelo deslocamento da curva sensorial para cima, mas pela redução de nossas expectativas.

O deslocamento da curva sensorial para cima por meio do poder material somente é possível caso a causa de nosso desconforto seja da mesma natureza e tal poder seja passível de ser por nós obtido. Depende da conquista do objetivo material cobiçado naquele exato momento. Isso nem sempre é possível, em função da natureza de nosso desejo. A ânsia insatisfeita de deslocar a curva para cima nesse último caso responde por grande parte dos erros cometidos pelos humanos em suas existências. 

Terceira Lei: Tanto o nosso conforto espiritual quanto o material dependem da diferença existente entre as condições ambientais existentes em um dado instante e aquelas que idealizávamos para o momento considerado.

De fato, nossa felicidade depende apenas de nossas expectativas. É por isso que as religiões tanto influenciam nossas vidas, tornando-as mais prazerosas. Elas nos ensinam que nossas expectativas devem ajustar-se a nosso merecimento acerca do qual nenhum de nós está seguro. É, justamente, a forma de avaliar esse merecimento que tanto diferencia os seres humanos em suas divergências religiosas e ideológicas.

Muitos julgam serem merecedores de todas as benesses ao alcance de sua visão. Outros reconhecem a necessidade de lutarem para fazerem jus às diversas conquistas que, pouco a pouco, são conseguidas pelos que a tal se dedicam. Muitos buscam maior quantidade de poder no tempo mais curto possível, recorrendo a expedientes inconfessáveis para consegui-la. Outros labutam toda a vida para aumentar o seu poder espiritual. Eles sabem que esse poder é eterno. Uns pensam que vão morrer. Outros sabem que a vida é eterna.

Essa última diferenciação é, de fato, a mais importante, pois é ela que baliza as ações dos indivíduos durante suas vidas no planeta. É ela que faz com que pessoas que adotam posições totalmente opostas sintam-se igualmente bem ao fazê-lo, podendo gerar irreconciliáveis atitudes. Explica-se: a crença na temporalidade da vida influencia a velocidade que julgamos justa para as transformações a serem efetuadas em prol de um mundo melhor. Os que crêem na morte e têm bom caráter tendem ao caminho da revolução, já que as condições terrenas, por extremamente diferenciadas, sugerem a presença de inaceitável injustiça a fustigar milhões de irmãos planetários. Por outro lado, os que sabem que apenas a vida material é transitória e crêem na eternidade da vida espiritual compreendem as injustiças presentes no mundo e apiedam-se dos que são por elas assolados. Essa compreensão os faz dedicarem-se não às imediatas transformações revolucionárias, mas sim à caridade cristã e à luta pela educação espiritual de nossos semelhantes e pela melhoria de suas condições materiais por meio do trabalho e da responsabilidade.  Eles sabem que a evolução não se faz a passos largos e de nada adianta igualarmos os desiguais por meio da revolução, ao invés de por meio do trabalho e da educação, etapas não contornáveis de nossa vida.

Eles também sabem que qualquer progresso no campo espiritual pode redimir sofrimentos de modo instantâneo, de acordo com a segunda lei formulada.  Eles entendem que as transformações puramente materiais são extremamente demoradas quando efetuadas licitamente. Quando efetuadas à margem da lei, de modo revolucionário, implicam em reformulações extremadas no que se refere à repartição de bens, podendo envolver o cometimento de crimes de natureza variada.

Nesse ponto, é conveniente mencionar que justiça não significa igualdade entre todos os seres humanos. É que, sendo Deus onisciente e onipotente, a sua atuação implacável (à qual testemunhamos diariamente) sempre se faz aplicar no sentido de restabelecer o equilíbrio nas situações desbalanceadas que são geradas por nós mesmos ao cometermos erros nesta e em outras vidas. Por meio da lei de causa e efeito, todas as dívidas são saldadas independentemente da atuação humana. É essa lei que, justamente, responde pelas injustiças existentes em nosso planeta. Isso não significa que não devamos lutar para eliminar as diferenças de qualidade de vida que assolam muitos de nossos irmãos, mas sim, que devemos entendê-las como provas a que somos submetidos. Afinal, quantos crimes já testemunhou o planeta nesses muitos milênios que marcam a existência terrena dos seres humanos? Seria justo que os que cometeram crimes ficassem impunes? O sofrimento dos homens na Terra está diretamente relacionado a esses erros anteriores, muitos deles conhecidos por todos os que estudaram os livros sangrentos e cruéis da História da Terra. As reencarnações respondem pela justiça divina. Os que erraram retornam em situação inversa em relação aos erros cometidos para que possam reavaliar o sofrimento que causaram e arrependerem-se.

As leis da natureza estabelecidas por Deus são perfeitas. Elas não necessitam de aperfeiçoamentos. Quando chega a hora, o progresso se faz permitir pela reencarnação de um gênio que com seu trabalho acrescenta novas possibilidades aos conhecimentos humanos. Assim, é licito e louvável que tentemos alcançar o progresso para nós e para os que nos cercam, mas não devemos nos esquecer que as grandes transformações planetárias têm hora predeterminada para ocorrer.

Por exemplo, uma cadela de nada necessita para parir seus filhotes. Mas ao testemunharmos seu sofrimento na hora do parto, quase todos somos tentados a prestar-lhe auxílio. Temos que nos recordar que, necessitasse ela disso, não deveriam existir animais nesse planeta, já que a maioria não recebe nenhum tipo de auxilio nessas ocasiões. São os mecanismos reguladores da vida na Terra os responsáveis pela manutenção da prolixidade das espécies, muitas delas ainda não descobertas pelo homem. Essa é uma das provas da existência de leis irrevogáveis que incidem sobre a natureza e prescindem da atuação dos indivíduos para que tenham eficácia.

Constitui, pois, arrogância o arvoramo-nos em executores da justiça divina sem termos delegação para tal. Essa é a causa maior dos males de natureza política que nos assolam. Isso, de modo algum, deve ser confundido com o nosso dever de zelarmos pela melhoria das condições genéricas de vida de nossos semelhantes por meio da dedicação e do trabalho individuais.

Essa afirmativa nem sempre é bem compreendida pelos próprios religiosos. É que as Escrituras são contraditórias em si mesmas. A participação de ministros de Deus nas lutas revolucionárias é exemplo disso. Se considerarmos o Velho Testamento, encontraremos justificação para a máxima “olho por olho e dente por dente” embutida em algumas ideologias radicais. Mas, quando nos recordamos do “amai-vos uns aos outros” e do “oferecei a outra face”, mandamentos revelados bem mais recentemente, no momento em que a evolução espiritual planetária permitiu aos seres humanos iniciarem essa nova trilha em seu caminho ascendente, compreendemos que nova etapa foi desencadeada por Deus em nosso planeta e que a violência não mais encontra respaldo nos seus caminhos.

É ainda importante mencionar que, de modo similar às religiões, a influência de outros fatores externos, tais como conselhos bons e maus, propaganda de todos os tipos, cultura, más companhias etc. podem deslocar nossas expectativas em quaisquer direções. Para tornar mais fácil esse entendimento, basta imaginarmos a influência que a televisão via satélite, levando a tribos indígenas a cultura das grandes metrópoles, pode ter em suas expectativas simplórias, expectativas estas que durante séculos responderam pelo bem estar destas comunidades.

 

II

 

Conforme mostrado no item anterior, de acordo com a Terceira Lei que rege a variação de nossas gradações de dor e prazer: “tanto o nosso conforto espiritual quanto o material dependem da diferença existente entre as condições ambientais existentes em um dado instante e aquelas que idealizávamos para o momento considerado”.  Em outras palavras, nosso grau de conforto, tanto espiritual quanto material, está relacionado às dimensões da área obtida subtraindo a área envolvida pela curva sensorial da área envolvida pela curva que representa nossas expectativas ao longo do tempo. Ou seja, está relacionado à diferença existente entre as sensações que sentimos e as que esperávamos sentir.

  Grau de conforto espiritual e material = f (sensações - expectativas)

A figura 6 mostra as áreas assim obtidas.

 

 

Figura 6

 

A curva verde mostra nossos sentidos que variam a cada momento. A curva preta revela nossas expectativas para esses momentos.  Sempre que ela se situa em nível mais elevado ficamos infelizes (área vermelha). Quando, ao contrário, a curva de nossas expectativas situa-se em nível inferior ao de nossas sensações ficamos felizes.

No instante t1, estamos sentindo dor, porém esperávamos senti-la em maior intensidade. Isso nos conforta, apesar da dor, pois sabê-la menos intensa do que temíamos finda com o medo que tínhamos de um sofrimento maior. No instante t2, nossa sensação se iguala à nossa expectativa e ficamos felizes, pois a felicidade consiste em conseguir-se o que se desejava. Como reza um velho ditado chinês:

"O homem feliz não é o que tudo possui, mas o que nada almeja"

No instante t3, nossas expectativas estão bem longe do que sentimos. Isso gera uma força que pode gerar diferentes conseqüências nos indivíduos. Tanto pode servir de estímulo a esforços direcionados a que se conquiste a posição desejada, quanto pode funcionar como agente depressor, contribuindo para piorar ainda mais a sensação indesejada. No caso, a curva sensorial está no quadrante do prazer. Quando nossas expectativas encontram-se muito longe de nossa realidade e a curva sensorial está no quadrante da dor (que difere de indivíduo para indivíduo conforme o enunciado da segunda lei), somos atingidos por uma força depressora que necessita ser contrabalançada por energias positivas, de modo a neutralizar seus efeitos maléficos. Nesses casos, é preciso elevar o nível de energia da curva sensorial, elevando o nível de energia de uma ou mais de suas componentes.

No instante t4, nossas sensações igualam-se às nossas expectativas de modo similar ao instante t2. Todavia, nossa felicidade será ainda maior em virtude do maior nível da curva sensorial nesse instante.

No instante t5, nossas expectativas são ultrapassadas, ou seja, vivenciamos situação mais prazerosa do que imaginávamos, mesmo considerando as melhores hipóteses. Todavia, essa situação é apenas temporária, resultando em que nossas expectativas aumentem até que elas se igualem ao nível da curva sensorial ou tornem a ultrapassá-lo, conforme ocorre no instante t6. Dessa forma, apenas por breve período, o nível da curva sensorial supera nossas expectativas. Isso explica o sentimento de avareza que, de modo geral, aumenta proporcionalmente ao aumento da riqueza individual. Explica, também, porque algumas pessoas que muito conseguem doam parte de seus ganhos. De qualquer modo, a curva sensorial sempre se iguala às expectativas daquele momento, seja pela redução do nível da curva sensorial, abdicando o individuo de parcela de seus ganhos, seja pela elevação de suas expectativas.

Quarta lei: Por mais prazerosas que sejam as sensações de um determinado indivíduo, elas não ultrapassarão as suas expectativas. 

Assim, podemos concluir que o caminho mais curto para a felicidade consiste em igualarmos nossas expectativas à realidade que nos cerca. Não devemos condicionar nossa felicidade a metas a serem alcançadas. Isso elevaria muito a curva de nossas expectativas e nos faria infelizes todo o tempo até que alcançássemos o patamar estabelecido.

Quinta lei: A felicidade consiste em igualar as expectativas à realidade.

 

III

Com base nas leis descritas, voltemos ao tópico desse capítulo. O Homem deve ter tido o seu primeiro contato com essas nuanças do poder, quando verificou os resultados que os fenômenos da natureza e os animais selvagens podiam produzir. Incapaz de explicar e controlar esses fenômenos e aqueles animais, mas testemunha das conseqüências que podiam acarretar, passou a odiá-los ou amá-los, conforme o grau de sofrimento ou conforto que lhe podiam proporcionar. As mesmas chuvas benfazejas podiam formar enxurradas e ocasionar inundações perigosas. Os acidentes físicos que machucavam seu corpo causavam-lhe muitas dores. A satisfação de suas necessidades (sexo, comida, bebida, agasalho e abrigo) gerava gradações variadas de dor e prazer. As variações climáticas podiam tornar a vida prazerosa ou insustentável.

Dessa forma, o desespero pela conservação da existência e a vontade de conquistar melhores condições de qualidade de vida submeteram o homem à lei do menor esforço e ao instinto de conservação, seu corolário (a maioria dos indivíduos alia a morte à dor máxima). Esse instinto induziu, não só o Homem, como muitos animais à vida gregária, forçando-os a agruparem-se para melhor sobreviver. Assim, passaram a conviver em comunidades. Nesse convívio grupal, uma vez assegurada a sobrevivência, os Homens iniciaram a competição com os demais membros do grupo, tentando compeli-los a respeitar os seus interesses, melhor forma de assegurarem tanto a própria conservação como o grau de conforto almejado. A tal poder denominou-se poder da força.

 Nessas eras remotas, a ascensão ao poder dependia da forma como as desigualdades físicas e mentais afetavam cada indivíduo da comunidade. Os mais bem dotados assumiam sempre a liderança, afastando à força, os que se opunham ao seu mando. A lei do menor esforço recomendava aos demais que se aproximassem o mais possível do líder, de forma a que pudessem usufruir um pouco de suas regalias. Surgiram, assim, os primeiros rudimentos do que viria a ser o poder político.

Nessa liderança do mais capaz já estava embutida a idéia de consenso. Embutida, é claro, pela força e não pela comunhão de idéias. Apesar disso, esse “consenso” do homem das cavernas fazia mais jus ao sentido da palavra que o existente nas sociedades democráticas modernas, onde, em geral, quase nunca se ajusta ao significado da palavra. Nas democracias, o consenso é substituído pela vontade da maioria. E, mesmo assim, em alguns países, o resultado das eleições constitui produto gerado por financiamentos nem sempre confessáveis, que podem estabelecer lideranças, por vezes, isentas dos atributos inerentes à palavra, possuindo, portanto, menor legitimidade do que a liderança dos homens das cavernas.

Isso se explica pela escassez filosófica que era peculiar àquela época. O pensamento geral era fortemente influenciado pelo atendimento ao primeiro dos requisitos da vida -- a sua própria conservação. As dúvidas eram poucas, provavelmente relacionadas à forma como essa sobrevivência seria assegurada. Os seres humanos sempre serão escravos de seu instinto de conservação.

Aqueles que alcançaram QDP satisfatórias aprenderam rapidamente que era desaconselhável implementarem quaisquer mudanças que não lhes assegurassem imediatas e seguras melhorias de posição. Alterações, mesmo que altamente meritórias, deveriam ser adiadas, cuidadosamente consideradas, seus efeitos atenuados e implementadas sem ímpeto, por amor da manutenção de status quo favorável. A conquista de melhores posicionamentos na escala de dor e prazer é obtida, conforme mencionamos, a partir da aquisição de maior parcela de poder. Contudo, tal conquista ocorre, quase sempre, às expensas da perda de poder de outros, exceção feita à conquista de maior parcela de poder espiritual. Assim, ganhos materiais geralmente causam perturbações difíceis de serem controladas, aconselhando-se prudência na tentativa de alterar o ponto de equilíbrio das forças que balanceiam o poder. Isso fez surgir no relacionamento humano a tendência à inércia. Esse outro corolário da lei do menor esforço faz com que seja grande o número dos defensores do status quo, seja por amor à prudência, seja por amor ao prazer. Todo cuidado é pouco quando a Roda do Poder inicia o seu giro. Ninguém está certo acerca de como, uma vez rompido, será restabelecido o novo ponto de equilíbrio e onde a roda irá parar. Dessa forma, paradoxalmente, mesmo os que almejam melhores posições na escala sensorial evitam quaisquer mudanças, defendendo a inércia. As coisas sempre podem piorar... Pelos mesmos motivos, é necessário estar atento a qualquer ação com potencial de provocar alterações de poder, já que estas possuem potencial para reduzir os níveis de QDP. 

Contrastando com aquelas épocas em que o homem ensaiou seus primeiros passos no planeta, hoje, não somente inúmeras teorias filosóficas influenciam os humanos, como os meios de comunicação alteram, cada vez mais velozmente, a sua posição perante essas correntes de pensamento. Em nossos dias, é como se cultivássemos a obsolescência das idéias a exemplo da eficaz estratégia da obsolescência programada de alguns bens materiais. As dúvidas são muitas e os homens oscilam ante elas como o capim ao vento. Isso tem resultado na alteração constante do equilíbrio do poder dos indivíduos.  E esse equilíbrio, conforme vimos, sempre foi buscado em todas as equações presentes no relacionamento entre pessoas. É que, à medida que a intelectualidade do Homem foi crescendo, o livre arbítrio passou a atuar sobre o equilíbrio do poder da força, enfraquecendo-o, dificultando cada vez mais a existência do consenso. Assim surgiu uma nova componente na formulação do poder: a exploração da intuição e da capacidade da imaginação. Ao poder da força acresceu-se o poder das idéias. Enquanto o poder da força dependia de atributos materiais, o poder das idéias era filho do poder espiritual.

É importante mencionar que o arbítrio sempre foi livre. Sendo o pensamento uma ação discreta e impenetrável, ele constitui o único direito que jamais pode ser retirado de qualquer ser humano. O universo do que é arbitrado, entretanto, depende fortemente da educação e do conhecimento. Um analfabeto dificilmente almeja a mesma posição na escala de QDP que um intelectual, o que não significa, conforme estabelece a primeira lei, que seja mais infeliz. A educação ou o conhecimento é que podem torná-lo infeliz, caso a sociedade em que vive inverta valores ou caso não haja correspondência entre aumento de conhecimento e melhoria de posição social.

É essa falta de correspondência que caracteriza os regimes autoritários que não oferecem oportunidades de progresso ligadas à valorização da capacidade dos indivíduos. Nesses regimes, é comum a inversão de valores. Isso é claramente entendido quando verificamos o potencial de infelicidade transmitido pelos meios de comunicação quando revelam quão baixa é a QDP de uma classe social, sem que mostrem, paralelamente, caminhos para que conquistem posições mais elevadas na escala sensorial. Há até governos que, ao compreenderem essa dura realidade, mantêm o povo na ignorância ou adotam a censura.

O livre arbítrio é o ingrediente principal do poder das idéias. A qualquer momento, um novo pensamento pode seduzir as mentes (que não podem ser subjugadas) fazendo-as adotar determinadas atitudes, constituindo fonte de poder.

O poder da força deriva da lei do menor esforço e de seu corolário, o instinto de conservação. O poder das idéias passou a minar estes dois redutos basilares daquele poder com um novo elemento perturbador de equilíbrio -- as religiões.  Decorrentes do medo e da ignorância dos Homens, sequiosos de paz de espírito, elas propõem-se a religar, através da fé, esse Homem àquilo acerca do qual não está seguro -- o seu próprio futuro e a razão de sua existência (e todos refletem sobre essas graves lacunas, que reduzem as QDP, ainda que muitos não o confessem). A sensibilidade a essa componente espiritual do poder é, todavia, proporcional à determinação dos seres humanos em satisfazerem os anseios de sua imaginação que os impelem a buscar soluções para as questões básicas da vida. Ironicamente, essa determinação também os desafia a buscarem novos conhecimentos, fazendo com que logo refutem, com base na lógica, muitos dogmas impostos pelas religiões. Acresceu-se assim, às religiões, a ciência como ingrediente, ora contestador, ora cúmplice do poder da força e como agente catalisador do poder das idéias. A Ciência tende a contestar a fé dogmática, base de quase todas as religiões, defendendo o advento de uma fé mais racional, posto que, explicando as dúvidas, tende a aproximar o Homem daquilo que desconhece.

Tal descenso afetou e continua a afetar os alicerces religiosos. A evolução científica, modificando o pensamento humano, força indiretamente as crenças que ferem esses novos conhecimentos a adaptarem-se. Porém, tais adaptações sempre encontram o forte obstáculo da inércia. De fato, conforme mencionamos com outras palavras, os seres humanos evoluem a passos lentos, cobrando o preço de diversas gerações para assimilarem e digerirem um novo conhecimento que origine alterações em sua ordem social. Como vimos, mudanças sempre são passíveis de ocasionarem imprevistos capazes de alterar as QDP e, por isso, são sempre adotadas com muita prudência pelos que detêm o poder. Na verdade, por isso mesmo, as mudanças são sempre mais cobiçadas pelos que não estão satisfeitos com suas posições na escala sensorial, embora a maioria prefira não reivindicar esses anseios pelas razões já mencionadas.

A inércia é, também, a maior responsável pelo fenômeno do apego ao poder (tão evidente entre os políticos). Ela influencia, de modo análogo, as religiões. Cada vez que novos conhecimentos são adquiridos, a adaptação das religiões pode implicar em perda de prestígio por parte de seus líderes, o que significa perda de poder. Pequenas evoluções podem ser por elas absorvidas, grandes transformações, porém, não são de bom grado aceitas. Por isso, os ensinamentos de Cristo provocaram forte reação contra seus seguidores, apesar de serem apolíticos.

Entretanto, todas as religiões buscam a verdade acerca de nossos destinos e origens, verdade essa que, embora desconhecida, deve ser única. Segue-se que a maioria delas possui conteúdo moral semelhante, apesar de sua forma depender bastante de condicionantes sócio-culturais, geográficas, políticas, econômicas etc., o que as diferencia profundamente na aparência. Essa diferenciação é, além disso, conveniente sob a ótica do poder, pois para cada nova denominação surge novo chefe de grupo o que gera conseqüentes possibilidades de aumento de QDP.

Esses mecanismos de interação entre os poderes acarretaram, através dos tempos, o advento de diversas crenças no planeta o que permitiu a divisão do poder espiritual (denominação dada ao poder das idéias quando essa idéia harmoniza o homem à sua concepção de Deus) em parcelas que se transformaram, ao longo do tempo, em fragmentos de poder disputados pelos homens. A história é quase sempre a mesma: a princípio, surge um missionário pregando novas idéias e revelando mais uma parcela da verdade; em seguida, por meio de aliciação de adeptos a essas idéias, o que ocorre naturalmente, forma-se um grupo; logo após a morte do líder, seus segundos propõem-se a perpetuar seus ensinamentos por crerem neles; então, mais cedo ou mais tarde, a seita relega a segundo plano o seu credo, priorizando a sua sobrevivência, já que o livre arbítrio dos homens acaba por ameaçá-la. Muitas vezes, para impedir a possível perda de poder, ou mesmo pela corrupção inerente ao poder absoluto, alguns religiosos pregam a antítese dos ensinamentos da religião que defendem. Tal paradoxo pode ser mais bem expresso pelos vocábulos guerra santa e inquisição. Destarte, podemos garantir que a maioria das religiões é boa, os religiosos nem sempre.

Com o aumento da população e, paralelamente, da injustiça social, o poder das idéias tornou golpear o poder da força com mais um agente perturbador -- as ideologias políticas. Essas, até nossos dias, ora aliam-se às religiões, ora contradizem-nas ao sabor das condicionantes que lhes justificam. A diferença entre elas reside apenas na grandeza de suas proposições. Enquanto as religiões procuram satisfazer os anseios da alma, submetendo-se, portanto, a Deus que detém todo o poder, as ideologias curvam-se às suas motivações, preconizando metas mais terrenas e palpáveis, sempre buscando a alteração da distribuição do poder material.

 

 

Figura 7

 

Embora as religiões devessem tratar prioritariamente do poder espiritual, o que as diferenciaria das ideologias, muitas vezes os religiosos, movidos quase sempre por bons propósitos, envolvem-se em questões políticas, reduzindo assim essa diferenciação. Como as questões de natureza política dizem respeito à luta por maior parcela do poder da força e esse aumento sempre se dá às expensas de outrem, não raro esses envolvimentos ocasionam prejuízo espiritual aos adeptos. Essa interação faz com que o poder espiritual (poder das idéias) sofra os apelos do poder material (poder da força) o que degrada a sua pureza.

Em síntese, como nos sugere a figura 7, o poder origina-se, de fato, nos próprios atributos da natureza humana, sendo regido pelo resultado do intimo embate que travamos entre o nosso livre arbítrio (influenciado pelas religiões e ideologias) e os apelos da lei do menor esforço e seus corolários quais sejam: o instinto de conservação, a inércia, a ação e reação e outros. Isso, porque são essas as leis básicas que regem as relações entre os seres humanos em todos os momentos e campos desta vida. O resultado desse embate determina a qualidade do poder exercido.

Todavia, é difícil estabelecer o percentual de influência das componentes materiais e espirituais no poder assim obtido, tornando, quase sempre, bastante problemática a identificação da natureza das forças que interagem na formulação dos diversos sistemas terrenos, sejam eles de natureza social, econômica, militar ou política.

O importante é que entendamos que a busca da felicidade nessa vida terrena consiste da compreensão de como somos influenciados pelas leis básicas e que o aumento da distância que separa nossas expectativas de nossas sensações depende de todos os tipos de poder, tanto do material como do espiritual. Porém, jamais devemos esquecer que a conquista de maiores parcelas de poder material tem que se submeter sempre às limitações estabelecidas pelos mandamentos de Deus, o que nos recomenda priorizarmos a conquista da felicidade por meio das benesses que nos são legadas pelos ganhos obtidos pelo aumento de nosso poder espiritual.

ibatan

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