Política, Estratégia e Religião 

(o que são)

 

 

 

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stratégia, Política e Religião sempre influenciaram intensamente a vida da Polis. Quotidianamente, ouvimos referências a esses assuntos. Alguns têm sugestões e críticas a apresentar.   Outros   temem   abordar   esses  temas, lembrando que  “política, futebol e religião  --  não se discute!”. Muitos confundem os seus domínios. Outros ignoram totalmente o que significam.  Enfim, de que tratam Política, Religião e Estratégia? Como se relacionam entre si? Podemos ignorá-las impunemente? Caso contrário, qual a importância de discutirmos tais assuntos?

É fácil distinguir os campos em que atuam essas três ciências ou artes. A Política é a arte do possível e a ciência dos conciliadores. A Estratégia é a arte dos generais e a ciência da sobrevivência. A Religião é ciência dos teólogos e a arte do espírito.  A Política está sempre presente, desde que exista mais de um indivíduo em cena. A Estratégia depende da existência de pelo menos um inimigo. A Religião depende da cultura dos seres humanos. 

Assim, podemos concluir que a Religião é a única das três que pode ser considerada como resultado do livre arbítrio de apenas um ser humano, já que ninguém é eficaz na tentativa de controlar o pensamento.  A Política têm que fazer concessões às vontades e aos atos de muitos indivíduos. A Estratégia tem que vencer uma vontade inteligente em oposição direta aos desígnios de um determinado grupo social. Tanto os delineamentos da Política como os da Estratégia dependem fortemente de aspectos fora do controle de uma pessoa isolada. O leitor já percebeu que as três são fortemente inter-relacionadas. A Estratégia diz o que fazer. A Política como fazer. A Religião influencia a amplitude dos caminhos da Política e da Estratégia,  estabelecendo limitações à atuação dos indivíduos, agindo junto às suas consciências.

É bastante difícil que algo não esteja, mesmo que em pequena escala, relacionado a algum aspecto da Estratégia, da Política e das muitas Religiões. Para melhor compreendermos essas relações, nada melhor que elaborar uma história fictícia que nos possibilite melhor compreendermos como atuam em nossas vidas a Estratégia, a Política e a Religião, mesmo que nem sempre sejamos capazes de detectar claramente a sua presença. 

 

A Estratégia 

 

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ma velha lenda conta que, em remotas eras, um povo vivia isolado em região onde, apesar da escassez de água, todas as suas necessidades logísticas podiam ser satisfeitas sem restrições. A paz reinava e todos eram felizes.

Certo dia, um dos caçadores regressou e, com excitação, informou ao mais velho da tribo que havia avistado um grupo desconhecido nas cercanias. Travara contato amistoso com eles, porém percebeu que carregavam armas estranhas e tinham acampado próximo ao açude onde conseguiam água . O velho ouviu atentamente enquanto novas rugas formavam-se em seu semblante marcado pelo tempo. Pensou por alguns instantes e, levantando-se, informou a todos que o fato era muito importante para ser ignorado. Por isso, todos deviam reunir-se em torno da fogueira, ao cair da noite, para discutirem que atitude deveria ser adotada ante a perturbadora presença de desconhecidos junto àquilo que assegurava a vida da comunidade. Nessa noite, dizem os antigos, nasceu a Estratégia. 

Reunidos em torno da fogueira, todos tinham algo a dizer. A noite já ia alta quando chegaram ao procurado consenso acerca da atitude que deveriam adotar com relação aos estrangeiros. É claro que sua presença ameaçava o abastecimento de água, vital à sobrevivência, mas agora tornado insuficiente. Assim, restavam apenas duas alternativas: afastar o grupo estranho ou procurar outras nascentes, abandonando a área aos poderosos novatos. 

 

A Política  

 

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as surgia a incerteza... Ninguém queria abandonar a área; porém, como afastar o grupo invasor? Alguns sugeriram a imediata construção de armas para dizimarem os intrusos. Outros, o diálogo para convencerem os recém chegados de que não haveria água para todos e que deveriam procurar outro local para viverem. Um sugeriu mentirem acerca da existência de um oásis a três dias de distância, de forma que o grupo tentasse encontrá-lo. Os poucos que retornassem enfraquecidos pela falta d’água seriam facilmente dizimados pelas armas que já estariam prontas. Os mais moderados sugeriram juntar forças com o outro grupo e iniciar-se a abertura de um poço que poderia aumentar a quantidade de água disponível antes que o velho açude secasse. A incerteza aumentou. Decidiram por efetuar uma votação, já que a vida de todos seria grandemente afetada por quase todas as alternativas do escrutínio.

 

A Religião  

 

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 linha de ação que envolvia enganar os recém-chegados, tentando condená-los a morrerem de sede ou pelas armas era a que oferecia maiores garantias de sucesso. Entretanto, esbarrava nos mandamentos da religião que cultuavam, a qual condenava a traição sob qualquer pretexto. Todavia, significativa parcela da tribo, embora inconfessadamente, desconfiava do atual líder religioso. Muitos desses descontentes com o comportamento da alta hierarquia religiosa praticavam, secretamente, a antiga religião, banida há quase um século e considerada como heresia.

A divisão religiosa tornava mais difícil uma clara decisão, já que aumentava as divergências de cunho ético e moral. Havia também a agravante de que os intrusos recém chegados também praticavam a velha religião considerada como heresia e contavam, por isso, com a simpatia de seus correligionários.

 

A Interação entre elas

 

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o final de tudo, em apertada eleição, os adeptos da construção do poço venceram já que contaram com o apoio, não só da dissidência religiosa - simpática aos da mesma fé – como da maioria religiosa - que abominava a traição – como também dos mais tímidos - que temiam as guerras - e dos que se beneficiaram das generosas doações efetuadas pela poderosa família que acabara de inventar e patentear estranha máquina furadora de poços...

Essa narração fictícia procura revelar de modo rudimentar (porém, talvez mais esclarecedor do que algumas definições clássicas) o que são Estratégia, Política e Religião e quais os seus relacionamentos, por vezes inusitados...

É importante mencionar que a Estratégia, nos dias em que vivemos, passou a ser também a arte dos empresários, já que são designadas como tal as ações destinadas a assegurarem a sobrevivência de suas empresas ou a aumentarem os seus lucros. Essa recente deturpação do que seja a chamada Grande Estratégia produziu nas mentes dos menos informados a idéia de que as contendas entre Estados-Nação podem ser resolvidas de forma semelhante às empregadas na competição entre empresas, que consideram (oficialmente) apenas linhas de ação levadas a efeito nos domínios da própria empresa. A Grande Estratégia pode envolver tanto ações internas quanto externas, como no caso da necessidade de exercer controle sobre objetivos localizados em outras regiões do globo ou provocar os efeitos desejados fora do território nacional. Ela, em geral, envolve a ação da diplomacia, dos serviços de informação e pode incluir a necessidade de praticar atos hostis, como o emprego de forças militares e, em última instância, a guerra ou pior -- o recurso a atos de terrorismo --, opção desesperada dos que não têm porque acreditarem na eficácia de outras estratégias.

Em suma: Política, Estratégia e Religião em muito podem nos auxiliar a melhor compreendermos o mundo no qual vivemos.

 

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