Alguns indicadores de golpe

 

 

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 emprego de indicadores pode auxiliar a análise do comportamento de um determinado sistema. Um exemplo popular é o dito “onde há fumaça, há fogo”. A fumaça é o indicador da existência de fogo. Mesmo sem vê-lo, quando detectamos fumaça, começamos a procurar o fogo. Indicadores também podem nos ajudar a entender melhor os governos. Eles podem contribuir para a eficácia da análise política que quase todos efetuamos mentalmente no que se refere aos atos divulgados pela imprensa relativos aos diversos governos desse planeta. Esse pequeno texto evidencia os indicadores prospectivos que revelam a possibilidade de que os que detêm o poder tenham intenções futuras de guinadas radicais em direção à esquerda. Gramsci, lá onde está, provavelmente concorda comigo.

Caso qualquer governo adote políticas de governo similares às citadas nesse trabalho, não se pode afastar a hipótese de que esteja planejando regime de exceção.

1)Implementarem medidas que contribuam para aumentar o desemprego e reduzir o salário.

Isso pode ser traduzido em: quaisquer medidas que desfavoreçam o crescimento econômico. Sendo o aumento da população constante, crescimento nulo ou inferior à taxa demográfica ocasiona desemprego e redução de salário pelo aumento do número dos que aceitam qualquer ocupação como forma de sobreviverem em cenário de emprego escasso. Isso tende a causar forte descontentamento popular, que é imprescindível a quaisquer alterações de ordem política. Medidas econômicas acertadas satisfazem a população que, desse modo, não se interessa por atos de exceção política. Enquanto houver esperança não haverá revolução. Quanto pior, melhor...

2)Adotarem desculpas populistas para os problemas causados por essas medidas (para salvarem a face do governo).

A adoção de medidas sabidamente inadequadas tem que ser acompanhada de explicações que, se ilógicas para os cultos, sejam de rápida aceitação popular por corresponderem ao linguajar do povo e ao que gostariam que fosse verdade.

3)Agirem conservadoramente, mas garantirem o insucesso dessas ações.

Os que intentam o golpe devem agir cautelosamente enquanto criam as condições para o seu sucesso. Assim, o conservadorismo em algumas ações é indispensável para afastarem suspeitas. Porém, como não é isso o que buscam, devem ser conservadores apenas nas iniciativas que sabem de antemão que não poderão obter sucesso. Futuramente, esse insucesso será utilizado como argumento a favor das transformações a serem adotadas. Vocês viram que tentamos de tudo, mas...

4)Criarem um bode expiatório a quem se possa culpar pelos problemas agravados pelo próprio governo.

É necessário criar um inimigo comum responsável por todos os problemas. Na Alemanha de Hitler, esses foram os judeus. Para as esquerdas radicais, o capitalismo.

5) 2+2 não somarem 4, em diversas áreas.

Nenhum empreendimento desse nível pode ser totalmente escamoteado. Por vezes, algumas medidas transpiram e têm que serem explicadas, de forma a não atraírem quaisquer suspeitas. É quando começam a surgir explicações que não fazem sentido ou que parecem pouco ter com o que deveriam. Elas são, todavia, bem aceitas pela maioria simplória. Para os mais eruditos, dois mais dois parecem nunca dar quatro.

6)    Buscarem apoio político internacional em áreas afins.

Tendo aprendido por meio da História a prever o posicionamento dos lideres mundiais ante atos de exceção, os golpistas buscam estreitar os relacionamentos com governos de orientação política similar e redesenhar as alianças entre Estados, preparando o combate à oposição e às retaliações que sabem terão que enfrentar.

7)   Adotarem política comercial que fortaleça alianças regionais em oposição às lideranças mundiais.

Sabedores das restrições comerciais a que podem ser submetidos os governos de exceção, os golpistas buscam intensificar os laços comerciais com os países fronteiriços que apresentam maior possibilidade de serem mantidos mesmo em situações adversas (nem que seja por meio de contrabando). É importante calcularem a magnitude e a receptividade das alterações de ordem comercial que terão que ser implementadas posteriormente.

8)  Incentivarem políticas de auto-suficiência nacional para o caso de terem que enfrentar oposição internacional prolongada.

A substituição de importações deverá ser planejada e favorecida.

9)  Diversificarem as fontes do abastecimento nacional.

Deverão ser estabelecidos laços comerciais com o maior número possível de países para aumentarem as possibilidades de que não haja escassez de produtos. Esses países deverão ser simpáticos à plataforma política do governo ou independentes de alinhamentos políticos automáticos.

10)  Iniciarem namoro com os interesses e os setores militares, enfatizando seus valores e importância como defensores dos valores constitucionais e outorgando-lhes vantagens de qualquer espécie.

Atos de exceção, que contrariem a Constituição Federal, somente são possíveis com o apoio das Forças Armadas. Assim, golpistas tudo farão para contarem com qualquer tipo de apoio dos militares. Caso não o consigam com as patentes mais elevadas, o tentarão com as mais baixas. Sem apoio militar, atos de exceção somente podem ser bem sucedidos caso se possa armar exército próprio, de preferência mais numeroso do que as forças militares. Tal exército deverá ser capaz de impressionar pelo gigantismo das multidões (podendo sua magnitude ser aumentada com o auxílio da mídia aliada).

11)  Caso não consigam o aliciamento das Forças Armadas, adotarem políticas de extinção gradual de sua capacidade de atuação.

Isso pode ser conseguido pela redução progressiva de sua participação orçamentária e pelo desencadeamento de campanha de degradação da imagem destas Forças como defensoras dos valores democráticos e da liberdade. A redução gradativa dos salários dos integrantes das Forças Armadas deverá ser empregada para desestimular os cidadãos mais capazes de abraçarem a carreira militar.

12) Infiltrarem adeptos, por meio de nomeações legais, em todas as áreas de importância militar, política, econômica e social, sendo esses nomeados mais claramente identificados como partidários políticos do que como dotados de reconhecida capacidade no setor.

O golpe bem sucedido é o que nem precisa ser dado. Para isso, é necessário que todos os escalões governamentais (pelo menos os primeiros três ou quatro) estejam todos ocupados por correligionários. Assim, muitas nomeações políticas devem ser implementadas antes que atitudes mais reveladoras das reais intenções sejam adotadas.

13) Apoiarem, deixarem de reprimir ou dificultarem a repressão a grupos de pressão (legais e ilegais) afins com sua agenda política secreta.

Em fase pré-golpe, serão alardeadas medidas (e amplamente divulgadas) contra os atos ilegais dos grupos de pressão para, logo em seguida, serem convenientemente esquecidas. Às condenações públicas suaves desses grupos deverão seguir-se atos a eles simpáticos, de modo a estimular-se a continuidade de suas ações.

14) Criarem símbolos, músicas, jargões, bandeiras e ícones identificadores de partidarismo. 

Todos se recordam do cumprimento nazista, da cruz suástica, da Marselhesa, ou de cores e símbolos usados para criarem elos afetivos e identificadores entre os membros do mesmo grupo revolucionário.

15) Buscarem o domínio da imprensa falada, escrita e televisada, por quaisquer meios, inclusive a facilitação da autorização de concessões de novos canais de meios comunicação.

O papel da mídia tornou-se importante a ponto de não mais ser possível controlar grupos tão numerosos quanto a população de um país sem o seu apoio. Os golpistas devem exercer controle sobre os principais canais da mídia. Caso não o exerçam, deverão infiltrar elementos em pontos importantes dessas empresas para garantirem que contem com o apoio necessário. Para conseguirem alianças, deverá ser utilizada a capacidade do governo de exercer influência no socorro financeiro a empresas em dificuldades e outros expedientes, tais como concessões de canais a correligionários políticos em locais onde não se consiga exercer o controle desejado. Pessoas honestas deverão ser banidas, pois, quem trabalha na mídia tem o poder de denunciar as versões tendenciosas que vão ao ar, acrescentando a elas as  metades convenientemente suprimidas.

16) Ignorarem fatos de extrema gravidade caso possam comprometer a sua agenda secreta.

Denúncias de crimes ou ilícitos que, todavia, possam contribuir de alguma forma com a agenda futura, ou que a possam revelar, deverão ser ignorados, se possível, na medida em que isso possa ser administrado sem que fique por demais visível. Quando não for possível ignorá-los, deverá ser desencadeada forte repressão temporária ao fato que assegure a todos exatamente o oposto do que se pretende. Mas, a porta não deverá ser fechada totalmente, já que, se pretende retornar a ela em futuro próximo.

17) Adotarem medidas populares irresponsáveis e oferecerem vantagens à população desassistida, não para solucionar seus problemas, mas sim visando buscar seu aval a quaisquer aventuras, valendo-se de sua ignorância política e de seus interesses imediatos.

A agenda política de um pré-golpe tem que ser totalmente alinhada com aquilo que a população desassistida identifica como sendo “o que deveria ser feito” (que, quase nunca, coincide com a medida correta que solucionaria o problema – geralmente em longo prazo). A alocação de verbas a fundo perdido em ações populistas angariará forte apoio popular enquanto contribuindo para o primeiro dos indicadores citados.

18)  Efetuarem acordo com o crime organizado internacional, que é capaz de manter importantes ligações com políticos, empresários, juizes, militares, religiosos etc., visando controlá-los secretamente por via indireta e irrestrita.

O poder do crime organizado no que se refere às ações ilegais não deve ser negligenciado em ações golpistas. O controle por eles exercido em diversas áreas pode ser de valia. Os golpistas não devem encetar programas eficazes de combate ao crime organizado, apenas parecer que o fazem.

19)  Efetuarem testes periódicos,  por meio de medidas de força (sem comprometimento) para avaliarem o nível de apoio político no seio da população e detectarem fontes de reação que possam existir no seio da sociedade.

Os golpistas devem testar a reação das massas periodicamente, agindo de forma deliberada, porém alegando a não intencionalidade de tais ações (de outra forma revelar-se-iam). A intensidade das explicações deverá ser proporcional à intensidade da reação que elas acarretarem no seio da sociedade organizada.

20)  Nivelarem por baixo,  visando uma inversão de valores e obterem maior apoio nas camadas majoritárias da população.

A nomeação de pessoas despreparadas para os cargos que ocuparão tem o poder de criar vínculo cuja manutenção passa a ser imprescindível à continuidade da benesse recebida. Assim, essas pessoas tenderão a aceitar qualquer coisa oriunda do governo. Isso também aumenta o descrédito nas pessoas mais preparadas, justamente os que poderiam denunciar o planejamento do golpe. Essas ações contribuem também para “provar” que os seres humanos são todos iguais.

21) Enfraquecerem o poder judiciário.

A adoção de medidas que favoreçam mudanças radicais encontra no poder judiciário um inimigo capaz de dificultar os avanços sobremaneira. É de todo conveniente que seja esse poder intimidado de alguma forma para que se torne mais fácil a proposição de novo modus vivendi entre os poderes que não impeça os propósitos dos golpistas. Deverão ser nomeados juízes simpáticos às causas revolucionárias.

22) Criarem uma rede de informações políticas e patrulhamento ideológico.

Sem informações pouco se pode fazer, muito se pode surpreender e tudo se pode perder. É imprescindível que sejam infiltrados elementos em todas as organizações de importância, para o que deverá ser usada a poderosa influência do governo. Deverão ser conhecidos os que poderão exercer resistência às mudanças a serem implementadas. Apenas um lado da questão deverá ser sempre apoiado. O outro lado (o que não lhes interessa) deverá ser sempre deixado de lado, desmentido ou neutralizado. O emprego de meias verdades será adotado ad extremis, principalmente nos bancos escolares.

23) Buscarem, inclusive por meios ilícitos, desvanecer da área política as lideranças consideradas como potencialmente hostis.

Os políticos sabidamente plantados em posições opostas deverão ser neutralizados por quaisquer meios. Preferencialmente, por meio de escândalos (ainda que forjados) tão ao gosto popular e da mídia. Caso não se disponha de líderes políticos, quem encabeçará a reação? Qual a alternativa a ser oferecida ao povo?

24)Enfraquecerem, por divisão de interesses, os setores organizados da sociedade capazes de oferecerem oposição.

Nada mais fácil do que dividir intelectuais. O emprego do poder para fazê-lo não é difícil. Basta, ora apoiar um grupo e suas idéias, ora apoiar outro de idéias diversas e semear a discórdia entre eles.

25) Enfatizarem a comunicação com os setores mais ignorantes e numerosos da sociedade, por meio de propaganda populista com largo emprego de falácias.

O uso de falácias é extremamente eficaz junto aos mais humildes incapazes de detectá-las ou sequer desconfiar que elas existem. Junto a essas camadas da população, são os que tentam revelar essa hipocrisia do governo os que mais perdem. O emprego de falácias, todavia, depende da cooperação de caricaturistas e críticos populares da imprensa capazes de denunciá-las à população ignara que, em geral, compreende caricaturas e críticas bem efetuadas.

26)Apresentarem planejamento de longo prazo incoerente com suas conhecidas plataformas políticas.

Afinal, o longo prazo talvez não seja tão longo assim...Isso explicaria essa incoerência e dois mais dois seriam quatro.

27)Formarem exército popular, organizá-lo a nível nacional e testarem sua capacidade de coordenar ações.

Quando as forças armadas não puderem ser totalmente cooptadas, é importante contar-se com exército em quem se possa confiar irrestritamente. Esse exército deve ser mantido mobilizado todo o tempo, de forma que sua atuação já seja uma realidade. Para tal deverá propugnar causa justa, de forma a que essa mobilização não cause alarme junto à população. Apenas seus objetivos poderão ser alterados oportunamente.

28) Adotarem políticas que favoreçam a possibilidade de obtenção de apoio logístico externo para esse exército, na eventualidade disso ser necessário.

Será preciso criar rede logística capaz de assegurar ao exército popular a continuidade de sua atuação quando ela for necessária. Assim, o governo deverá manter contato secreto com elementos estrangeiros que provarem serem capazes de prover o apoio que necessitam. Tais contatos poderão gerar medidas inaceitáveis que sugiram que 2+2=1000.

29) Lançarem mão de elementos do próprio governo, insuspeitáveis, para sugerirem a inadequabilidade das ações governamentais conservadoras e a busca de novos caminhos revolucionários, enquanto negando a legitimidade dessas sugestões.

Isso manterá nas mentes da população a idéia de que o caminho que deve ser seguido pelo governo é o de afastar-se do conservadorismo. O governo não pode afastar-se dele enquanto prepara o caminho da revolução, mas teme que sua atuação possa fazer com que o povo acabe pensando que ela é correta por ser por ele adotada. Contribui para que o governo utilize posteriormente essas criticas como se fosse um farol que passe a guiar suas ações. Não se pode correr o risco implícito no abandono temporário da agenda política real. É necessário manter-se viva a idéia da ação revolucionária.

30) Instigarem valores xenofóbicos.

O fechamento produzido por uma revolução de cunho esquerdista radical implica em valorizar o que é nosso em detrimento do que vem de fora, já que não disporemos desses recursos de qualquer forma após o desencadeamento das ações. O ranço contra os estrangeiros (os encarados como inimigos potenciais) deve ser criado, se não existir, e mantido vivo até o momento necessário.

31)Imbecilizar a população e desviar sua atenção por meio do circo ("panis et circenses").

O emprego da mídia, que pode ser comprada com verbas públicas, pode ser muito útil para imbelicizar o povo, nivelando por baixo e apelando para os seus mais baixos instintos. Programas como big-brother, a fazenda, pânico e outros muito auxiliam neste mister. Quanto mais bundas, menos bandos. Menos bandos de cidadãos preocupados com o golpe. Grandes artistas deverão ser empregados para ridicularizar coisas e pessoas sérias perante o povo imbecilizado. Isso facilitará a aceitação de coisas inaceitáveis pelos mais capazes. Isso contribuirá para reduzir a capacidade de pessoas honestas denunciarem a corrupção em andamento.

32)Desarmarem a população.

Não se pode admitir que haja qualquer tipo de reação ao golpe. Sem armas, as classes representativas da Nação nada poderão fazer. Devem-se também conhecer os que as possuem e onde moram. Pela gravidade do significado dessa assertiva é que a Carta Magna dos EEUU garante aos seus cidadãos o inalienável direito de portarem armas para sua própria defesa, bem como para dificultarem, pela possibilidade de formação de milícias, as traições de cunho político.

No caso de não serem identificadas as presenças desses indicadores em quaisquer governos, as possibilidades de intenção de golpe são provavelmente falsas. É importante mencionar que a sua presença não garante, por si só, a realização dos eventos que prenunciam (os golpes de Estado). Mas sim, que não se pode descartar a possibilidade de que estejam sendo planejados. Esses indicadores são apenas ferramentas de uso prospectivo baseadas na lógica, tanto política como estratégica, que devem estar presentes na avaliação de todos os governos.

 

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