A Guerra USA x Iraque

(Escrito em 22/3/2003)

“É esta geração daquele grande Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa. Pois graça a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz em seu próprio pais, e da ajuda mútua contra inimigos estrangeiros.”

 (Leviatã de Thomas Hobbes de Malmesbury, Segunda Parte, Capítulo XVII)

Antecedentes

À

 medida que a pretendida “coalizão” avança em direção à Bagdá, as mentes dos estrategistas retorcem-se em pensamentos acerca de como será o novo mundo que daí vai emergir. Para isso, é mister que se recordem alguns fatos anteriores que nos auxiliem a compreender as reais motivações envolvidas nesse conflito, que continuarão a influenciar os novos cenários dela decorrentes.

Antes de tudo, é necessário recordar que, durante séculos, as potências da Europa, especialmente o Reino Unido, cuidaram para que a Rússia não obtivesse uma saída para os chamados “mares quentes”. Após a segunda guerra mundial, com a expansão da URSS e a eclosão da guerra fria, o Irã passou a ser cobiçado pelos soviéticos como sendo o último obstáculo a ser transposto para atingir os mares quentes, que poderiam servir como bases navais, indispensáveis na luta contra os EEUU. Em 1953, o Irã entrou em choque com os interesses do Reino Unido, nacionalizando as companhias petrolíferas estrangeiras. A URSS, coerentemente com sua política externa, ofereceu-lhe o seu apoio. Com a ajuda dos serviços de informações do Reino Unido e dos EEUU, o Xá Mohamed Reza Pahlevi (que havia fugido do país) retornou e assumiu poderes ditatoriais. Afinal, sempre foi importante também para os interesses estratégicos norte-americanos que a URSS não conseguisse bases no Irã de onde pudesse operar seus navios.

Coerentes com sua política, em 1971, os EEUU concederam ao Irã crédito de um bilhão de dólares para a compra de armamentos. A ditadura do Xá, todavia, descontentava a muitos. Em 1978, diversas correntes de oposição ao Xá uniram-se sob a liderança do Aiatolá Khomeini, exilado na França, e derrubaram o governo de Reza Pahlevi em janeiro de 1979. Ainda nesse ano, a embaixada americana foi invadida tendo sido feitos 64 reféns. A operação militar montada para resgatá-los, em janeiro de 1980, tornou-se um fiasco. Aumenta o ódio dos americanos contra o regime do Aiatolah.

Nessa mesma época, o míssil SS-18 da marinha soviética, baseado em submarinos nucleares lançadores de mísseis estratégicos, alcança a precisão necessária para atacar silos de mísseis "Minuteman" norte-americanos, tornando-se uma arma contra-força capaz de desestabilizar o balanço da deterrência. Isso faz com que a possibilidade do regime do Aiatolá aliar-se à URSS seja considerada ainda mais perigosa aos interesses norte-americanos. Significaria bases navais para esses submarinos nucleares soviéticos.

O Iraque não era visto com bons olhos pelos ingleses e norte-americanos, já que havia nacionalizado a exploração de petróleo, em 1972, expropriando as companhias daqueles países que lá operavam. Porém, necessitavam fazer algo contra o Irã, assim precisam do apoio do Iraque.

Coincidentemente, em 1979, o vice-presidente do Iraque, Sadan Hussein, do partido Baath, dá um golpe e assume o poder (com a aprovação e possível interferência norte-americana desejosa de anular a ameaça do Irã). Em 1980, conforme interessava aos EEUU, o Iraque invade o Irã, iniciando uma guerra que perduraria até 1988. O Iraque, estimulado pelos EEUU, arma um dos maiores exércitos do mundo. Os EEUU, face à suas leis, não poderiam tê-lo feito, porém, outros países, entre os quais o Brasil, foram capazes de auxiliar aquele país. (Sucuri, Cascavel, Astros, Osório, Urutu etc. em plena época de paz, sem que os brasileiros estranhassem tantas armas novas...). Os americanos não fecham questão contra o acordo nuclear Brasil-Alemanha, apesar de não verem com bons olhos qualquer novo desenvolvimento nesta área.

Em fins de 1988, tendo o Iraque emergido como vitorioso na guerra contra o Irã e com o desmantelamento aparente da União Soviética, toda a questão se altera. Aliás, os EEUU já vinham auxiliando o Irã, (escândalo Irã – Contras) temerosos de que uma vitória iraquiana levasse aquele país a uma posição de liderança do mundo árabe, o que poderia desestabilizar ainda mais a região. Assim, apesar de ter ficado demonstrado em exames periciais que os gases que mataram os Curdos eram iranianos, os EEUU passam a acusar Sadan Hussein de tê-lo feito. Agora é necessário por um fim às pretensões daquele ditador. Os americanos sabiam que haviam armas químicas no Iraque (talvez fornecidas por eles mesmos, pois conheciam sua localização. Somente não sabiam que Sadan havia se livrado delas há tempos...).

Não esqueçamos que as companhias que exploravam o petróleo no Iraque e que foram expropriadas em 1972 sempre desejaram findar a ditadura de Sadan. Todavia, naquela ocasião, o Estado americano considerava que seus interesses no combate à União Soviética e a questão palestina e suas implicações tinham prioridade em relação aos problemas dessas companhias. Com o fim da guerra fria, parece ter chegado a hora da vingança. Iniciam-se nos EEUU os planejamentos para a conquista da região vital ao fornecimento de petróleo, cuja escassez em futuro próximo é provável em face do aumento previsto do consumo mundial em relação às possibilidades de descobertas de novas reservas. Em novembro de 1989, cai o muro de Berlim, marcando o fim da guerra fria com a vitória dos EEUU. É chegada a hora de consolidar o objetivo estratégico de controlar as regiões produtoras de petróleo e estabelecer nova ordem mundial com a supremacia americana.

É importante observar que o maior período de paz vivido pelos EEUU, desde a guerra da independência, foi de vinte e dois anos e ocorreu entre as guerras mundiais (1919 até 1941) e no meio de tão prolongada paz ocorreu a crise de 29. A economia americana está baseada nos subprodutos da guerra. Parece ser uma coincidência que elas ocorram a cada dez a quinze anos (quem não quiser recorrer à história pode constatar essa coincidência observando o hall de entrada do Capitólio, onde fica a galeria da medalha de honra do Congresso, que somente é concedida durante guerras e contém os nomes dos agraciados e as datas em que isso ocorreu).

Sadan Hussein havia se tornado desnecessário e incômodo, já que era inimigo de Israel. Como resultado de ter fornecido armamento ao Iraque, o Brasil construíra parque industrial capaz de concorrer em excelentes condições no mercado internacional de armas e o carro de combate Osório passara a ser cobiçado pelos militares da Arábia Saudita. Havia também a suspeita de que o Brasil fabricaria, mais cedo ou mais tarde, armas nucleares. Isso incomodava não somente o irmão do norte, mas o tradicional cartel de armamentos. Tudo indica que ficou claro aos americanos que a oportunidade de colher os frutos da vitória sobre a União Soviética e estabelecer novas regras num mundo agora unipolar não deveria ser desperdiçada. Nesse cenário, não se pode afastar a hipótese de que os EEUU tenham induzido na mente cobiçosa de Sadan Hussein a antiga idéia de recuperar o Kuwait, cujas atuais fronteiras foram estabelecidas convenientemente pela ação diplomática inglesa.

Para melhor compreensão dessa assertiva lembremo-nos que:

Dessa maneira, sabedores das idéias megalômanas de Sadan e conhecedores da história, como afirmamos, não se pode afastar a hipótese de que os EEUU tenham convencido Sadan de que – os fatos passados em desertos não lhes diziam respeito, desde que fosse mantido, é claro, o fornecimento de petróleo. Após consulta à embaixadora norte-americana no Iraque, Sadan conclui nesse sentido. Coerentemente, os EEUU, que tudo testemunhavam por meio de satélites, não se importaram com os preparativos para a retomada dos antigos territórios do Iraque no Kuwait. Afinal, ela podia contribuir para que alcançassem os seguintes objetivos:

Em 1990, o Iraque invade o Kuwait e é derrotado pelos EEUU e seus aliados. A indústria de armas brasileira é desmantelada pelos interesses internacionais. O presidente Collor deixa-se fotografar tapando o buraco. Acusações são feitas em jornais contra os militares brasileiros que estavam no Iraque. Os EEUU realizam o grande sonho de instalar bases militares na Arábia Saudita (créditos são concedidos para a compra de armas por aquele país). Tudo aparenta ter corrido de acordo com os interesses norte-americanos.

Entretanto, os EEUU não depõem Sadan Hussein, estranhamente, retirando-se do Iraque após a liberação do Kuwait (o continuísmo do ditador pareceu aos observadores bastante conveniente para futuros invernos econômicos. Algumas más línguas chegaram a dizer que foi um presente de pai para filho...). Na verdade, no dizer de Madeleine Albright, Secretária de Estado dos EEUU, Sadan, apesar de ser um doido, era o menos doido lá existente e sua substituição poderia desestabilizar a região... (conforme de fato veio a ocorrer...)

 

A situação atual

(Escrito em 22/3/2003)

 

Com o onze de setembro, os EEUU passam a ter um cheque em branco para efetuar o que sempre sonharam: agir militarmente com o apoio maciço de sua população, apoio esse vital para a obtenção do aval do congresso a tal política. Continuando com sua estratégia de consolidar sua liderança unilateral militar, antigos planos são levados a efeito: primeiro o Afeganistão, (passagem dos oleodutos), depois o Iraque, a seguir, quem?...

Alegando estarem salvando o povo do Iraque, por meio da destruição de parcela de sua tão antiga capital e da morte de muitos civis inocentes, contrariando quatro itens do artigo segundo da Carta das Nações Unidas e o item 12 da Resolução 1441, do Conselho de Segurança, as tropas anglo-americanas invadem o Iraque.

Na atual guerra contra o Iraque, os interesses são quase os mesmos que existiam na época da invasão do Kuwait:

O novo mundo que emergirá desses conflitos fica mais fácil de se entender à luz dessas motivações. Mais recentemente, espalhou-se boato acerca de possuir o Iraque a maior reserva de petróleo do mundo, superando a da Arábia Saudita. Existiriam reservas de cerca de 300 bilhões de barris (é provável que seja apenas mais um boato).

 

Perspectivas

(Escrito em 22/3/2003)

 

O Presidente Bush reconheceu, em recente declaração, que a guerra será longa. Sabemos que as declarações do Presidente são elaboradas anteriormente e sempre possuem alvos selecionados. Teria o “statement” visado a saúde da economia, intentando parecer que a duração da guerra já era prevista e em nada deve alterar os mercados? Teria ela visado preparar o espírito do povo norte-americano para o que não esperava ver – uma longa guerra? Seria um “bluff” destinado a demonstrar fraqueza inexistente e surpreender os inimigos com algo que está por vir?

Noticias recentes sugerem que outras nações estariam fornecendo secretamente tecnologia ao exército de Sadan Hussein. Os russos teriam fornecido aos iraquianos equipamentos capazes de introduzirem erros no posicionamento dos americanos pelo GPS. Esse sistema é largamente empregado por eles. O sistema GPS transmite dados para os militares com precisão bem maior da que pode ser obtida por equipamentos comerciais. Os equipamentos civis incorporam erros propositalmente introduzidos no sistema de forma a que seu uso seja limitado (mesmo assim, com precisão superior à obtida empregando-se a navegação astronômica). Esses erros são aleatórios e aumentam em períodos como o atual, podendo, inclusive, em situação de extrema gravidade, ser interrompido temporariamente o uso comercial do sistema. É importante observar que os iraquianos também devem estar usando o GPS. As acusações americanas contra os russos acerca de venda de armas (de guerra eletrônica, mísseis anti-carro, etc.) sugerem que eles devem estar encontrando resistência superior à esperada, incluindo tecnologia também insuspeitada.

Terão os iraquianos, mesmo assim, condições para enfrentarem a imensa disparidade de força e de tecnologia? Por quanto tempo? Para efetuar conjecturas acerca dessa pergunta basta observar o mapa orográfico do Iraque, o qual revela que, além do deserto, os únicos acidentes de terreno existentes são as montanhas ao norte e nordeste (onde os Curdos dominam), algumas represas e os rios Tigre e Eufrates, que correm quase paralelamente. Incapazes de enfrentarem o inimigo em campo aberto, é de se esperar que o grosso da resistência iraquiana localize-se próximo às pontes que cruzam esses rios, até que seja necessário retraírem para o interior de Bagdá. É possível que essas pontes tenham sido minadas, mas isso não impedirá que sejam reconstruídas em curto prazo, no caso de serem destruídas. Assim, a invasão de Bagdá é certamente inevitável. Basta observarmos as contínuas colunas de tropas que desembarcam ao sul e dirigem-se ao norte.

Vale ressaltar que a guerra urbana intentada pelos iraquianos depende fortemente do apoio da população civil. Dessa forma, desejam que os EEUU bombardeiem as cidades para acirrar o ódio do povo contra eles, já que é bem possível que possam perder esse apoio tão logo a sanguinária ditadura seja deposta. Por isso, localizarão sua resistência próxima a alvos civis cujo bombardeio seja inaceitável perante a opinião pública. Caso a guerra se alongue, será cada ver mais difícil barrar a presença da imprensa internacional e exercer censura da mídia, o que concorrerá para tornar mais crítica ainda a atuação norte-americana, já que quaisquer erros poderão ser testemunhados e divulgados ao mundo por nações cujos interesses sejam opostos aos de Bush.

Fazendo-se uma correlação com o que ocorreu em Canudos, onde a disparidade era comparável, podemos concluir que tudo dependerá do moral dos combatentes. Quando a tropa que cercava Canudos (5000 homens com artilharia de campanha) finalmente invadiu aquele complexo, encontrou apenas uma criança, dois jagunços e uma velha que acreditavam naquilo porque combatiam. Canudos não se rendeu... Será que os iraquianos acreditam na defesa de seu solo ou será que julgam o regime da mesma forma como o ocidente? Se acreditarem, os americanos podem preparar-se para dias amargos. Senão vejamos:

Se os iraquianos forem semelhantes aos Jagunços de Canudos, os americanos podem estar entrando no Vietnam do deserto... Ou talvez nada disso ocorra. Somente o tempo poderá responder essa questão.

(Escrito em 22/3/2003)

Carlos Hernán Tercero

 

© todos os artigos deste site podem ser reproduzidos desde que sejam citados o autor e a fonte.