Esquerda, Direita e Religião

 

 

O

 cenário existente no período da revolução francesa pouco parece com o que hoje nos serve de fundo. Mas, as reivindicações populares continuam similares, só que em patamar mais elevado. Em nossos dias, a igualdade de oportunidades é considerada em quase todo o planeta como sendo direito de todos. Apesar disso, a miséria assola o mundo. Inúmeras conquistas sociais, científicas e tecnológicas que poderiam solucionar muitos problemas findam como privilégio de poucos, face ao aumento inusitado do número de seres humanos causado, justamente, por essas conquistas. A existência de contrastes na qualidade de vida dos indivíduos e a velocidade da indústria da obsolescência geram forte clamor nas massas por tecnologias que lhes são exibidas quotidianamente pela propaganda. Entretanto, nem sempre lhes são mostrados, ou sequer existem, os caminhos para que possam fazer parte de tal mercado cada vez mais tentador.

Sempre existiram diferenciações entre qualidades de vida. Contudo, hoje, a propaganda globalizada nivela as aspirações de indivíduos separados por abismos intransponíveis. A visão de um produto de última geração inspira em todos a vontade de possuí-lo. Os que crêem que não poderão, por meios ortodoxos, ter acesso a esses mercados são tentados a encurtarem os caminhos que a ele conduzem por quaisquer meios que se apresentem. Os meios aparentemente mais fáceis, rápidos e disponíveis estão, em geral, ligados ao crime. A insegurança torna-se maior a cada dia. Os cidadãos, perplexos ante o aumento dos riscos a que se submetem diariamente, tendem a atribuir tal situação à falta de caráter dos nacionais e engrossam as fileiras dos que em nada mais acreditam. A falência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e a subseqüente degradação de suas forças armadas inundaram o mundo com armamentos de alto poder de fogo introduzidos facilmente em países do terceiro mundo pelo descontrole do contrabando.

A exortação das massas a que assumam melhores posições no mercado e a oferta de armamento sofisticado, aliadas à chegada ao poder das esquerdas em nosso país, contribuíram para aumentar a balburdia em que se transformou a ordem nacional. É que as esquerdas têm resquícios de pudor em reprimirem quaisquer ações oriundas do povo, mesmo as que têm que ser reprimidas (A crise de autoridade). Fato similar ocorreu durante a revolução francesa. Inúmeros assassinatos, saques, depredações e vinganças de toda a ordem foram cometidos. Foram justamente esses atos que geraram o forte sentimento de insegurança, até mesmo entre os Jacobinos, que reconduziram o poder à direita. A nova Constituição promulgada em 1795 consolidou as aspirações da burguesia. Segundo o relator do projeto, Boissy D’Anglas, ela garantiu a propriedade do rico, a existência do pobre, o usufruto do homem industrioso e a segurança de todos. 

De fato, todos sentimos saudades dos dias pacíficos de outrora, quando se podia caminhar livremente pelas ruas sem temer seqüestros relâmpagos ou balas perdidas. Todos sentimos saudade dos tempos em que o direito humano do cidadão existir prevalecia sobre o direito humano do criminoso que tira a vida dos inocentes. Significaria isso que as esquerdas não são capazes de exercerem o poder sem que a desordem impere? Não necessariamente.

Os radicalismos de esquerda baseiam seu pensamento na utopia de que todos os seres humanos são iguais. Em nosso país, seus integrantes são, em sua maioria, intelectuais ou pessoas simples destituídas de riqueza e de poder na sociedade. Eles sempre pretenderam instituir uma nova ordem por meio da destruição da que existia e pelo estabelecimento de critérios destinados a estabelecerem a igualdade de todos os cidadãos, independentemente de seus méritos. Eles necessitam abolir as crenças religiosas e substituí-las pela crença no Estado.

A proposta de destruição do sistema existente, quando implementada, gera uma perda em valores humanos que, por sua vez, acarreta ainda maiores dificuldades do que as que existiam antes da eliminação da burguesia. A chamada ditadura do proletariado finda baseando-se mais no direito da força do que na força do direito. O estabelecimento de partido único e a abolição de diversos direitos sociais em nome do bem estar de todos, isto é: do Estado, traduz-se por concentração de poder pela burocracia oficial o que, logo, produz corrupção similar à que existia antes da revolução. Na prática, pouco muda a não ser pelo advento de um “nivelamento por baixo” e pela mudança do plantel que comandava a corrupção. A História nos revela essas feridas da extrema esquerda. Não há caso conhecido de sucesso nesse tipo de regime.

Em sociedade construída para garantir que todos tenham a mesma qualidade de vida (seja ela alta ou baixa), é menos atraente progredir em termos individuais. Em tal sociedade, o progresso individual não tem contrapartida em aumento de qualidade de vida. Para que envidar esforços então? Esses sistemas políticos pregam que não existe coisa como a recompensa divina, já que Deus é substituído pelo Estado. O Estado garantirá o necessário para a sobrevivência de qualquer forma, tanto para cirurgiões cardíacos, como para limpadores de latrina. Nessa sociedade, todos são tratados igualmente, mesmo sendo desiguais. Não é isso o que os seres humanos desejam. Eles vivem de esperança. Eles, paradoxalmente, vêm com bons olhos as desigualdades na esperança que, um dia, possam inserir-se no lado mais aquinhoado dessas desigualdades. O que combatem é a exclusão. Todos querem usufruir as benesses das injustiças sociais. Como disse Joãozinho Trinta: “Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual”.

Então, chegamos ao impasse: nem a direita nem a esquerda parecem apresentar soluções aceitáveis ao problema do estabelecimento de uma forma de governo que satisfaça a todos. Assim, é preciso aprofundar a análise. Porém, isso não é possível sem considerarmos as crenças religiosas dos indivíduos. Essas crenças afetam a forma como eles encaram os sistemas políticos.

Nesse ponto, o leitor deve ter percebido que nada foi escrito em relação aos sistemas políticos de direita. Todavia, isso é proposital. Esses sistemas não foram abordados pelo fato da mídia já tê-los criticado “ad nauseam”, pelo menos durante os últimos vinte anos. Até mesmo nas escolas, esses sistemas são criticados persistentemente.

As religiões abordam o emprego de poder tanto por Deus como pelos seres humanos. Por isso, influenciam o modo de pensar dos indivíduos no que se refere às suas preferências políticas. Não se pode, como alguns acreditam, separar a religião da política (embora se deva separar a Igreja do Estado). Ambas expressam o como da vida e não podemos nos esquecer da célebre frase do Padre Leme Lopes: “Para saber o como da vida é necessário determinar antes o porquê da existência”. Assim, não podemos analisar as esquerdas e as direitas sem abordarmos antes algumas questões que fustigam as mentes da maioria dos cidadãos e influenciam o modo como encaram as diversas formas de governo:

·  De onde viemos? Para onde vamos?

·  Somos todos iguais? Ou somos o produto da sociedade que nos permeia?

·  O que nos sucede após a morte física?

·  Existe Deus? Existe uma força superior que nos julga?

·  Existe a reencarnação?

·  Existe karma? Existe alma? Existe o mundo espiritual?

·  Nossos possíveis erros serão perdoados tão logo deles nos arrependamos? 

Todos têm suas respostas a essas perguntas. Elas se diferenciam na mesma medida em que diferem as diversas religiões e ideologias que sedimentam os sistemas políticos. Para facilitarmos o posicionamento do leitor, definimos algumas possibilidades de resposta a essas perguntas. Escolha o item que mais se coaduna com o seu pensamento, ou elabore outro de seu agrado:

A

Todos os seres humanos devem ser tratados igualmente. Os indivíduos são o produto das condições do meio em que vivem. Não existem Deus, vida após a morte, karma ou justiça divina. Logo, todos devem ter acesso às mesmas benesses nesta vida única. Todas as diferenciações que existem entre duas pessoas são o resultado de fatores materiais, do meio ambiente ao qual estiveram expostos e da educação que receberam.

B

Os seres humanos nascem desiguais e devem ser tratados desigualmente na mesma medida em que se desigualam. As desigualdades que diferenciam os seres humanos têm sua origem apenas em fatores materiais. Não existem Deus, vida após a morte, karma ou justiça divina. Todavia, todos devem ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. As peculiaridades inatas de caráter, de capacidade, e de inteligência que marcam os indivíduos estabelecerão, por si só, a diferenciação que, inevitavelmente, existirá entre eles.

C

Os seres humanos nascem desiguais e devem ser tratados desigualmente na mesma medida em que se desigualam. Essa diferenciação origina-se tanto de fatores espirituais quanto de fatores materiais. Existem Deus e vida espiritual. Todos estão sujeitos à reencarnação na qual poderão resgatar seus erros anteriores.  Ela é o significado da justiça divina. Todos estão sujeitos ao karma que marca a sua existência. Todos devem ter os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Deus perdoa a todos, mas é necessário que resgatem suas faltas.

D

Todos os seres humanos nascem iguais e, portanto, devem ser tratados igualmente. Eles são feitos à semelhança de Deus, porém, não existe karma nem reencarnação. Os indivíduos são o produto do meio onde são educados. Deus existe, bem como a sua justiça. Após a morte, todos serão julgados pelos seus atos e receberão conforme o seu merecimento. Deus auxiliará aqueles que a ele se submeterem a alcançarem o progresso material. Os que se arrependerem em vida, sempre serão perdoados pelos seus pecados.

E

Todos os seres humanos nascem iguais e devem ser tratados igualmente. Eles são feitos à semelhança de Deus. Não existe reencarnação. Os indivíduos são o produto do meio onde são educados e das condições em que nasceram e são marcados por sua predestinação. Deus existe, bem como a sua justiça. Deus se sobrepuja a todas as coisas. Após a morte, todos serão julgados pelos seus atos e receberão conforme o seu merecimento. Deus recompensará aqueles que a ele se submeterem a alcançarem benesses na vida espiritual. Servir a Deus acima de todas as coisas é a meta a ser buscada por todos os indivíduos.

Dependendo do modo como encaramos essas questões estaremos mais inclinados a apoiar esse ou aquele sistema político. Os que pensam como descrito em “A” são, quase sempre, partidários de regimes comunistas. Não devendo existir tratamento diferenciado entre dois seres humanos, os meios de produção devem obedecer a planejamento estatal centralizado de forma a que possam satisfazer as necessidades de todos de forma igualitária. Não deve haver diferenciação na qualidade de vida dos cidadãos. O bem do Estado que provê as necessidades de todos deve prevalecer sobre o bem do indivíduo. Deus não existindo, os indivíduos tendem a dedicarem-se mais ao Estado, até que o mundo se integre na comuna universal.

Os que concordam com “B” tendem a simpatizar com a direita e a assumirem posições mais conservadoras. Podem, também, apoiar a extrema direita. Os partidários de “C” tendem ao centro. Os que escolheram “D” tendem também ao centro, com a vantagem de poderem assumir posições hipócritas, já que pensam que Deus lhes perdoará imediatamente os erros quando, no futuro, se arrependerem... Os que pensam como em “E” não distinguem religião de política e tendem a apoiar as teocracias.

Na população brasileira, podemos encontrar indivíduos simpatizantes de todas essas correntes de pensamento e de muitas outras não citadas. Todavia, a corrente majoritária parece pensar como em “D”. Essa é a principal razão pela qual o Brasil jamais será um país comunista. Os que pensam como em “A” não são muitos. Porém, são extremamente ativos e valem-se da ignorância popular acerca do que se passa nos regimes comunistas para, por meio de falácias, aliciarem adeptos. Tendo dominado as Universidades e as Escolas, incutiram nas mentes de seus alunos a idéia de que os que hoje assumiram o poder, no passado, lutavam pela democracia e não pela ditadura do proletariado. Muitos ainda confundem patriotismo com militarismo e simpatizam com a idéia de que o Estado deve desaparecer em prol de uma nova ordem, conforme sustentado na Terceira Internacional Comunista. Isso poderia explicar a síndrome de descaso pelo próprio país tão comum entre os mais jovens.

Carlos Hernán Tercero

  

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