O cavalo de Troia em HD

                                                                                                                                                                                            "There's no free lunch"                        

                                                                                                                                                                                               expressão popular inglesa                                                                            

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ão sendo capazes de derrotarem os Troianos, que se abrigavam em sua cidade fortificada, em guerra que se estendia por mais de dez anos, os gregos construíram, atendendo a uma estratégia de Ulisses, um grande cavalo de madeira que abrigava guerreiros e o abandonaram na praia, retirando-se. Os Troianos, pensando ser um presente pela sua vitória, conduziram-no para o interior de sua cidade, tendo, inclusive, que destruir parte do portão de entrada, face à altura do cavalo. À noite, quando todos dormiam, os gregos saíram do interior do cavalo, abriram os portões de Troia e dizimaram os troianos. Daí surgiu a expressão: “presente de grego”.

Achou que foi inocência dos troianos? Não deveria - porque você também aceitou um presente a cada dia mais barato, de inimigos poderosos e o trouxe para dentro das muralhas de seu lar... Pior; você o doou a seus filhos... Você esqueceu-se da expressão: “there’s no free lunch!” (não há almoço grátis!).  Agora, não é mais você sozinho quem educa os seus filhos. Desde que você abriu a porta das muralhas de seu lar, inicialmente, para a televisão aberta e, depois, para diversos outros “cavalos”, muitas coisas foram alteradas.

Você tem saudade do tempo em que não havia a televisão? Você não viveu o tempo em que não havia a televisão? Os que se recordam deste tempo sabem a grande transformação que o mundo sofreu com o elevado poder de comunicação da mídia atual que, de modo crescente, a partir do advento da televisão e de seu grande poder de atrair a atenção, passou a ingressar em sua casa sem bater à porta. Alguns dirão que, mesmo antes, o rádio já desempenhava este papel. Todavia, recordemos que uma imagem vale por mil palavras. Assim sendo, foi como se a televisão tivesse multiplicado por mil a incipiente influencia do rádio que transmitia, principalmente, músicas, novelas e notícias, mas sem o extraordinário poder de atração e de comunicação exercido pelas diversas telas e telinhas. Assim, a televisão e as demais telas desempenham, hoje, o papel ancestral inaugurado pelo famoso cavalo de Troia. Todos os tipos de imagens invadiram o seu lar, à revelia do que você considera conveniente para a educação de seus familiares. A partir daí, esse cavalo passou a influenciar a educação da sociedade como um todo.

Os mais novos jamais poderão imaginar o mundo que existiu antes disso. Vamos tentar recriar este cenário para os que não o conheceram.

Hoje, ao acordarmos, quando ligamos um simples botão, uma variedade de informações invade nossas mentes, fazendo, por vezes, que nem sequer consigamos falar aquilo que estávamos pensando ao despertarmos. Nosso pensamento é logo desviado para as imagens de todo e qualquer tipo que nos são apresentadas, desafiando-nos a emitir um juízo de valor qualquer acerca do que está na tela. Em passado recente não era assim. Nos anos cinquenta, no interior dos lares, havia conversas acerca daquilo que nos rodeava, acerca de nossas vidas, de nossos vizinhos, da rua em que morávamos, de nosso trabalho, de nossos ideais. Durante as refeições, todos conversavam e emitiam conceitos pessoais sobre diversos temas. Os jornais eram a fonte de notícias. Mas, quem tinha tempo para lê-los na íntegra? Isso somente ocorria aos domingos, quando as edições eram volumosas, abordando os mais variados temas sobre quase tudo. No meio da semana, o mais provável é que a maioria lesse apenas as manchetes, a lide e a sub lide (lide é o texto que aparece nas manchetes em caixa alta e deriva do inglês "lead" e sub lide o imediatamente mais abaixo em negrito – o resto se denomina cascata). Hoje, o silêncio tomou conta destes momentos familiares. Todos necessitam ouvir e ver o que está nas diversas telinhas ou telões e falar pode prejudicar essa audiência. As conversas ficaram bem mais curtas. Por toda a parte, diversos seres humanos contemplam os seus celulares e TVs, déspotas de muitas mentes.

Quando se conversava em família, as ideias transmitidas dependiam da cultura e da educação de quem as formulava. Elas variavam imensamente, sendo improvável que, em duas casas, mesmo vizinhas, se falasse sobre o mesmo assunto. Assim sendo, a educação dos filhos, que presenciavam essas conversações, refletia o modo de agir de seus pais. A moda não era tão despótica como nos dias atuais. Não havendo essa canalização de pensamento que, agora, nos é impingida pela internet, pelos celulares, pelos telejornais e demais programas televisivos, o pensamento das pessoas tendia a ser mais heterogêneo. As tradições imperavam no comportamento de quase todos. Transgredi-las significava o mesmo do que, hoje, adotar comportamento diferente do estabelecido por essa massificação do pensamento. Ocorreu assim uma inversão nos valores adotados pela sociedade. As tradições e os costumes foram derrotados pela moda, pela propaganda, pelo que é considerado como “in” ou “out”. Agora, é usual, alterarmos nossos comportamentos em função de qualquer propaganda bem elaborada e repetida à exaustão.

Ela é tão mais eficaz quanto mais jovem seja o seu público alvo. Isso tornou possível a obtenção de resultados espetaculares na política, no marketing, no comportamento das pessoas, no que se considera como sendo politicamente correto e, até mesmo, na intimidade dos indivíduos.

Todavia, toda alteração de costumes, de procedimentos, de regras e de pensamento pode trazer consigo muitos fatores negativos. Quando abandonamos o conforto das tradições que nos apresentavam soluções quase padronizadas para as questões importantes de nossas vidas, caímos num emaranhado de caminhos que nos são sugeridos por diversas ideias de plantão que abundam na sociedade, agora submetida aos despóticos desígnios da moda descompromissada de qualquer valor, guiada apenas pelo objetivo de produzir lucro ou poder.

Esse cenário tornou nebulosos os conceitos de moral e de ética. Ética e moral possuem significados diversos. A ética está associada ao estudo fundamentado dos valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade, enquanto a moral são os costumes, regras, tabus e convenções estabelecidas por cada sociedade. A palavra “ética” tem origem no grego “ethos” que significa “modo de ser” ou “caráter”. Já a palavra “moral” vem do latim “morales” , ou seja, “relativo aos costumes”.

A ética depende da moral, dos costumes. Quando a propaganda finda por alterar o comportamento majoritário da sociedade, os costumes e a moral são afetados, gerando alterações nos procedimentos considerados como sendo éticos... Essa liberalização da ética imprime em muitas mentes a ideia de que certos procedimentos, antes condenados por todos, agora, não são tão condenáveis assim... Não é isso o que está ocorrendo em nossa sociedade? Basta ligarmos a televisão ou entrarmos no facebook e testemunharmos muitas dessas alterações de comportamento que, em alguns casos, findam causando óbitos, roubos, atos insanos etc.. Certos jornais chegam a serem bastante depressivos e nos sugerem que seria melhor ficarmos sob a proteção de nossos tetos... Agora, não aceitamos que nossos filhos saiam de casa sem um celular... Não mais ficamos à vontade sem telefonarmos para eles a intervalos regulares para saber se algo lhes sucedeu...

Pior ainda, aplicativos de celulares possibilitam a troca horizontal indiscriminada de ideias, fazendo com que seja possível o anonimato, ou o recebimento de mensagens de desconhecidos, disseminando assuntos inaceitáveis a nossos padrões morais. Isso também solucionou um grande problema dos criminosos: o poder de se comunicarem facilmente, independentemente de onde estejam. Em passado recente, praticamente, apenas os agentes do Estado possuíam tal capacidade.

As telas, independentemente de suas dimensões, e os palcos alteraram os costumes dos seres humanos. Sem a divulgação constante de cenários agressivamente alteradores dos costumes tradicionais exibidos por essas telas e palcos, sem as chacretes seminuas do Chacrinha, sem as mulatas seminuas do Sargenteli, no Oba Oba, sem as mulheres mil do Walter Pinto, no teatro Serrador, sem as dez mais bem despidas do Sérgio Porto (Estanislau Ponte Preta), publicadas no jornal Última Hora, sem a total nudez de Brigite Bardot, no filme "e Deus criou a mulher" e nas praias de Búzios, sem o biquini de Ursula Andrews no filme "007 contra Dr. No", sem os filmes esquerdizantes de Hollywood, sem Mary Quandt e sua mini saia, sem  o "drogas, sexo e rock and roll" de Woodstock, sem os filmes nacionais da década de sessenta, setenta e oitenta (pornografia disfarçada de arte para que pudesse ser exibida hipocritamente), sem os palavrões introduzidos nas peças de teatro e hoje banalizados, fazendo parte do colóquio de muitas famílias, não teria sido possível alterar a moral vigente, tornando esses novos valores aceitáveis na maioria das mentes. O conteúdo dos programas de televisão mais populares, como os de domingo à tarde, destinados às classes mais pobres, atestam essa espécie de lavagem cerebral hodierna. Nos anos quarenta, quem seria capaz de afirmar que as mulheres mostrariam suas bundas nas praias indiscriminadamente, e, inexplicavelmente, ficariam envergonhadas caso um vento levantasse sua saia rodada e aparecesse seu joelho em qualquer local que não fosse uma praia?

Outra grande alteração social foi a massificação cultural. Há alguns anos, quem viajasse pelo Brasil testemunharia grandes alterações no comportamento das pessoas, em seus sotaques, em sua culinária, na moda, até mesmo nas piadas, conforme o local em que estivesse. Hoje, quase todos falam carioquês. Hoje, é possível fazer a cabeça da audiência na política, na culinária, nas vestimentas, no corte de cabelo, nas expressões populares, nos hábitos, na moda e, principalmente, na moral dos indivíduos. Quem não se submete a esses novos “valores” é logo rotulado de conservador, termo transformado pela propaganda como sendo pejorativo. O correto é ser “progressista”, ou seja, aberto a todos os tipos de transformação do comportamento social tradicional. Isso possibilita aos que dominam a mídia fazerem as suas verdades e alterá-las ao sabor dos interesses do poder.

Sim... O PODER... Este vilão que continua a ser o sonho de quase todos. Ele é quem comanda os caminhos da moda e da propaganda. Ele está dividido em nosso mundo em muitos compartimentos. Não existe área em que não haja alguém ou alguma entidade dominando tudo o que se refira a uma específica gama de interesses. Essa ânsia dos seres humanos pela obtenção de poder, que se traduz pela capacidade de produzir o efeito desejado na hora em que se deseja, sempre existiu. Mas, seus caminhos eram limitados pela dificuldade de disseminação das ideias. Em 1441, Gutenberg aperfeiçoou o processo gráfico que facilitou a impressão de textos e que tornou possível a disseminação de ideias entre pessoas comuns, antes privadas dessa possibilidade, já que os livros eram manuscritos por monges copistas e conservados nos mosteiros que praticamente escondiam da maioria todo o saber neles registrado. A partir daí a mídia percorreu um longo e demorado caminho até alcançar a sua moderna capacidade de “fazer a cabeça” do povo.

Mas... Sempre há um mas... Qualquer transformação aceita incondicionalmente, como é o caso das transformações impostas pela mídia, finda por ser julgada pelas consequências que, quase inexoravelmente, acarreta. Em nossos dias, um grande número de indivíduos já começa a perceber que essa capacidade de interferir em nosso dia a dia, como o fazem, impiedosamente, as mídias, está conduzindo a sociedade a caminhos nada agradáveis. A sociedade beira ao descontrole. Os mais jovens desrespeitam os mais velhos, em casa, nas escolas, nas ruas, etc. Crianças engravidam em bailes, crianças atemorizam a população, esfaqueiam transeuntes, comercializam drogas, assassinam pessoas sem qualquer razão lógica. Adultos agem da mesma forma com a desvantagem de poderem sofrer penas mais duras... É cada vez mais raro encontrar um casal que tenha cumprido o “até que a morte os separe”. Aliás, é raro encontrar um casal na acepção da palavra. Filhos, em inúmeros casos, se tornaram um incômodo e são abandonados e adotados pelo crime organizado que os remunera.

O sexo irresponsável, tornado banal pelo significado atual da palavra “ficar”, que torna aceitável comportamento antes extremamente condenado pela sociedade, exerce seu papel tirânico, destruindo muitas vidas e gerando filhos sem pais tradicionais. A esses pais “progressistas” se pode atribuir grande parcela de culpa pelos males modernos. Muitos casais sofrem as consequências desses atos modernos e são premiados com o mal do século: a depressão.

Essa depressão que atinge a muitos vem revelando o real significado do dito “progresso” de nossos costumes. O crescimento da procura pelos bares, pelos psiquiatras e pelos psicólogos atesta tal afirmação. Os valores éticos atuais também estão claramente demonstrados pelas palavras mensalão, petrolão, Fifão, BNDESão, big brother Brasil, um programa imbecil, etc.

Será que não está na hora de revermos os atuais valores adotados pela sociedade? Será que não está na hora de fazermos algo para evitar que continuemos a sermos campeões em homicídios? Em tráfico de armas e de drogas? Em famílias destruídas por coisas banais? Em filhos sem pais? Em temor de sairmos às ruas? Será que não está na hora de pararmos de ridicularizarmos quem ainda crê em Deus? Será que não está na hora de fazer com que os seres humanos saibam que não vão morrer?

Sim. É à crença na morte que se pode atribuir uma grande parcela de culpa pelos males descritos. É bastante lógico que quem pensa que a vida seja apenas isto o que vivemos aqui aja no sentido de transformar sua existência num paraíso. Com a depreciação do conservadorismo, é cada vez maior o número dos que não hesitarão em praticarem quaisquer atos que tornem sua existência mais agradável.

É à massificação da cultura imbecilizante e ao abismo que separa a ciência da religião que se pode atribuir esta culpa. Enquanto houver quem ridicularize os que creem em Deus e na vida eterna e quem se espelhe nos descaminhos que podem ser sugeridos pelas diversas telas, pouco poderá ser feito para alterar o rumo traçado pelos Homens, seduzidos pelo poder material e armados com as possibilidades da mídia moderna que nivela tudo por baixo segundo o interesse de quem pagou. Esse rumo está conduzindo o planeta a um grande abismo. Não nos esqueçamos: “todo poder absoluto corrompe absolutamente”. Nunca antes na História foi possível invadir com tal sucesso a maioria das mentes e efetuar nelas um “bullying” íntimo, sugerindo aos menos cultos que sejam complacentes com a adoção de comportamentos condenáveis, mas que possibilitem a redenção das práticas que desejam tornar aceitáveis, sempre com propósitos materialistas.

Não tenha medo de ser conservador! É preciso conservar nossa possibilidade de sobreviver... Resista às telinhas... Resista à crítica de suas amizades com mentes lavadas pela mídia... Não se envergonhe de defender os antigos valores morais. Somente assim você poderá, ao deitar sua cabeça em seu travesseiro, dormir com a consciência tranquila, mesmo sabendo que, apesar de seu posicionamento provavelmente não mudar nada, você fez sua parte e por ela será julgado. Agora, responda: Você também trouxe cavalos de Troia para o seu lar? Você ao menos os vigia para saber o que sairá de dentro deles? Ou você dorme como dormiram os Troianos?

“Vigiai!” (Mateus 26:41)

ibatan

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