A SUPREMA COVARDIA

"Não faça aos outros o que não queres que te façam”.

                                                                                                                                         Confúcio

O

s seres humanos são classificados como animais racionais, mas muitos não são dignos dessa classificação. De fato, alguns seres, ditos humanos, adotam comportamentos que superam a bestialidade até mesmo das mais traiçoeiras feras. É claro que o comportamento selvagem dos animais decorre de sua necessidade de matarem para sobreviver. Nenhum deles se compraz em fazer o mal. Todavia, isso não é verdade no que se refere aos seres humanos. A triste realidade é que não são poucos os que se encontram nos estágios primários da evolução.

A covardia é filha da insensibilidade pelo sofrimento alheio e do egoísmo, arquiteto das muralhas que erguemos para assegurar a inviolabilidade de nosso bem estar e para impedir que descortinemos o sofrimento que pode ser causado por algumas de  nossas ações em busca desse mesmo bem estar, quando ele é obtido às expensas do bem estar de outros.

 

A covardia somente é possível de ser posta em prática quando se detém a parcela de poder por ela exigida. Constitui um dos instrumentos empregados por Deus para mensurar o nosso comportamento. É Deus quem nos possibilita sermos covardes,  já que todo o Poder nos é dado por ele e a covardia disso depende, pois ela é, na essência, o mau uso dos diferenciais de Poder. A covardia exige que utilizemos Poder para produzirmos o torpe efeito desejado. Porém, sendo Deus onipresente, é a sua observação de como usamos o Poder por ele a nós concedido que baliza nossa ascensão na escada evolutiva onde todos os seres humanos tentam galgar mais um degrau. Os mais covardes estacionam nessa ascensão.

 

Diversos tipos de covardia podem ser identificados numa gradação decrescente que revela o grau de desvio comportamental de determinado indivíduo em relação aos padrões tidos por esta sociedade como adequados. É importante que tenhamos em mente que o que se considera ação covarde em determinados grupos sociais pode ser considerado como coisa normal em outros. A covardia é fortemente influenciada pelos usos e costumes, pela política local e pelos interesses dominantes. A época histórica e a tecnologia disponível também exercem influência sobre o que se considera ato covarde ou não. Mas é a evolução espiritual a grande responsável pela presença ou ausência desses atos. É ela que, num extremo, faz prevalecer a atuação do instinto de conservação ou dos caprichos criminosos dos indivíduos e, no outro, favorece o espírito da renúncia, grande bálsamo que extingue as ações covardes.

A covardia pode ser medida, como já dito, pelo diferencial de Poder existente entre quem pratica e quem sofre o ato covarde. Assim, uma ação criminosa pode não ser covarde, caso quem a pratique tenha igual ou menor poder que a vítima. Porém, isso dificilmente ocorre, pois o poder que mensura esses atos não é o poder real dos seres humanos, mas o poder do qual dispõem no instante considerado. Dessa forma, espetar um leão com uma lança tanto pode ser considerado como covardia ou como ação meritória. Tudo depende das circunstâncias. Caso o leão estivesse enjaulado, isso seria uma covardia. Caso estivesse para matar outro ser vivo...

Isso mostra a dificuldade de julgarmos as ações covardes, já que apenas o pleno conhecimento de todos os fatores relacionados a determinado evento nos permitiria qualificá-lo como ação covarde. Um dos aspectos que melhor possibilita diferenciar os atos, qualificando-os ou não como covardia, é a inaceitabilidade de não executá-los imediatamente, ou seja, o apelo do  instinto de conservação.  A inexistência de alternativa a determinada ação sob risco de extermínio, por si só, justifica o uso de força superior contra seres mais fracos. É o caso do extermínio dos vírus, bactérias, vermes etc, que possam ameaçar vidas humanas. A própria lei consagra o direito à legítima defesa, justificando, inclusive, o homicídio, desde que tenha sido empregada apenas a força necessária e suficiente para resguardar a incolumidade daquele contra o qual se intentava praticar ato agressivo.

As guerras constituem outro terrível exemplo da “justificativa” legal de atos covardes. Aí as coisas se dificultam ainda mais, ingressando numa zona cinzenta na qual só mesmo Deus pode discernir e julgar as motivações envolvidas.  Constituiriam os milhões de mortes e de ferimentos evitados com o bombardeio de Hiroshima e Nagazaki justificativa para a imolação daquelas milhares de pessoas? Essa terrível questão revela a demência da conflagração militar entre Nações, monstruosa filha do egoísmo e do ódio vingativo e preconceituoso que, até nossos dias, tem pautado as relações internacionais.

A covardia convive com os hipócritas seres humanos. Quem visitar um matadouro ou um abatedouro ou presenciar a morte de uma baleia, certamente, compreenderá essa assertiva... Mas, a justificativa da necessidade de obtenção de proteínas, como se não fosse possível obtê-las de outra forma, oferece à grande maioria dos seres ditos humanos uma desculpa de bom grado logo aceita e suas mentes, rapidamente, esquecem o sofrimento daqueles pobres animais, ditos irracionais.

Considerando-se que apenas dois bilhões de habitantes do planeta conseguirão se alimentar com 250 g de cadáveres de animais por dia (um terço da população planetária) e que a média de peso dos animais abatidos é de 50 kg de carne aproveitável, torna-se necessário abater cerca de DEZ MILHÕES de aves, peixes e cabeças de gado - diariamente! Todos parecem fazer força para ignorar o fato de que cerca de quatro bilhões de seres humanos não conseguem comer carne, mas sobrevivem...

Todavia, as piores covardias são as que se originam dos caprichos, das vaidades e dos preconceitos. São os atos totalmente dispensáveis, praticados tão somente por indivíduos de pouca evolução espiritual. O pior é que muitas dessas ações, apesar de extremamente covardes, ou seja, praticadas contra seres que não possuem qualquer capacidade de reação, por mero capricho, tornaram-se covardemente costumeiras, a ponto de serem aceitas pela sociedade como coisa normal. Esse é o caso que considero como sendo a suprema covardia: prender pássaros em gaiolas. Isso equivale a amarrar uma pessoa em uma cadeira e mantê-la assim durante toda a sua vida!

Ah! Se os humanos pudessem traduzir o canto das aves aprisionadas...

Mas, cativar pássaros a poucos impressiona. Não são muitos os que se dão conta de que, enquanto a Lei do Amor for ignorada a ponto de crianças possuírem atiradeiras e alçapões e seus pais também acharem isto normal, certamente, Deus não permitirá que cessem as mazelas que assolam este atrasado planeta, pois tal comportamento constitui, na verdade, mais um indicador dentre os que traduzem a duração do caminho de provas a que os humanos ainda serão  submetidos, até que possam assimilar a essência do mais desinteressado amor, que é o que os faz tratar com bondade aos seres inferiores da escala evolutiva, sempre que o instinto de conservação assim  lhes permite.

ibatan

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