As Escolas do Crime

 

  

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 insegurança está por toda a parte. Os cidadãos, pouco a pouco, vão adaptando-se à sua nova condição de sitiados em seus próprios lares. Ensina-se como proceder durante os assaltos e seqüestros. Medidas destinadas a agradarem criminosos são premeditadas antes dos transeuntes aventurarem-se fora de casa. Sair sem um celular causa preocupação. Nervosamente, pais ligam para seus filhos com freqüência para se assegurarem que eles ainda estão vivos.

Esse quadro, que vai se tornando rotina de todas as grandes e pequenas cidades, não surgiu por acaso. Ele foi sendo construído paulatinamente, à medida que a mídia foi aumentando a sua presença em nosso quotidiano, tomando, aos poucos, o lugar dos pais como educadores de tempo integral.  A mídia tem suprido essa lacuna, oferecendo uma solução prática para o problema da ausência cada vez maior da família na educação dos jovens.

De fato, no Brasil de hoje, os pais e as mães têm que trabalhar cada vez mais para manterem o mesmo padrão de vida, já que os salários são insuficientes, as reposições das perdas salariais não ocorrem com a freqüência que seria desejável e a carga tributária espolia porções cada vez maiores desses reduzidos ganhos. O desemprego crescente faz com que todos sintam saudades dos tempos em que o Presidente Lula comandava greves na região do ABC paulista sem correr o risco de ser despedido sumariamente.  Agora, para cada pessoa empregada, existe uma fila de “sem trabalho”, esperando que ela seja despedida; todos prontos para ocupar a sua vaga. Apenas os funcionários públicos podem fazer greves. Perderam os trabalhadores das empresas privadas e perdeu a família. O papel das mães como tradicionais guardiãs da educação de seus filhos nos mais importantes anos de suas vidas teve que ser relegado a segundo plano em prol do atendimento da primeira das necessidades: a sobrevivência.

Assim, a educação dos pequenos, em muitos lares, foi terceirizada. Ao invés dos pais, são as creches, as escolas, as babás, as colônias de férias etc. que desempenham o papel de conduzirem o dia a dia de seus filhos.  A televisão - entretenimento barato e sempre disponível - findou monopolizando a atenção das crianças sequiosas de quaisquer passatempos e desempenha papel preponderante no aprendizado infantil. Ela exerce o seu papel nefasto justamente no seio das famílias menos favorecidas, onde a ausência dos pais é mais freqüente e o acesso a boas escolas é raro. Nesses lares, é comum que menores assistam a quaisquer tipos de programação.

Dessa forma, não mais existindo a censura do governo e, ultrapassada pelas agruras da vida, a censura dos pais, vão as nossas crianças tendo suas mentes lavadas pelas cenas mais comuns exibidas nas telas de tv. Tal fato poderia não ter a gravidade de que se reveste caso a programação das emissoras de televisão fosse adequada ao papel educativo que lhe foi imposto pelas circunstâncias citadas. Porém, a resposta ao fim da censura não foi a programação responsável, mas sim a busca do lucro como principal agente discriminador dos tipos de mensagens que serão transmitidas ao público,  em quaisquer horários.

Se jogarmos uma roleta de tv, ou seja, se por meio de um controle remoto selecionarmos todos os canais, mudando de estação a intervalos de um segundo, quantas cenas de assassinato, sexo ou violência presenciaremos? Esse é um interessante e assustador jogo. Ele revela que apenas os cenários anormais são apresentados incessantemente, como se fossem rotineiros. Quantos homicídios você já testemunhou em sua vida real? A imensa maioria das pessoas responderá que jamais vivenciou cenas desse tipo, porém, se um extraterrestre assistisse somente durante uma hora os programas atualmente exibidos concluiria que matar seres humanos faz parte da rotina diária de todos, constituindo ato natural. A normalidade não se encontra facilmente nos enredos dos filmes ou novelas, nos noticiários, nas entrevistas e, até mesmo, nos comerciais.

Assim sendo, a televisão transformou-se numa escola de crimes, ensinando aos nossos filhos, desde tenra idade, mil maneiras de: praticarem diversos tipos de roubos, planejarem a morte de desafetos, burlarem a polícia no tráfico de drogas, fugirem de uma prisão, explorarem a prostituição, efetuarem contrabando, estuprarem, mentirem, traírem, etc. Você pode continuar a enumerar muitos outros desvios educacionais produzidos pela irresponsabilidade dos pais, dos responsáveis pela programação das emissoras de televisão e das autoridades governamentais que a tudo assistem impassivelmente. 

Ao completarem dezoito anos, quantos desses crimes terão presenciado nossos filhos? Quem ao menos lhes explicou que isso é uma espécie de demência que atinge a nossa sociedade? Quem sequer sabe quais programas assistiram durante o dia? 

Ao chegarem em casa, sabendo que dispõem de pouco tempo de convívio com seus filhos até que um novo dia de labuta se inicie, os pais não se sentem inclinados a despender essas poucas horas exercendo a autoridade paterna que outrora marcava a educação nos lares. Ao invés disso, é mais provável que (os que dispõem dos recursos necessários) tragam, isto sim, presentes para seus filhos, independentemente de como se tenham comportado durante o dia, para tornarem esse escasso tempo mais agradável e como uma espécie de desculpa por não terem podido dedicar-lhes a atenção adequada.

Habituados a não serem repreendidos em seus lares, aflora nessas crianças a rebeldia ao cumprimento de normas, gerando-lhes aversão a qualquer tipo de autoridade. Por isso, proliferam a arrogância e a desobediência, atitudes atualmente comuns em nossos jovens. Desacostumados à obediência às regras paternas, eles tendem a desafiar também as normas sociais elaboradas como garantia dos direitos comuns dos cidadãos que regulam o comportamento das pessoas em locais coletivos. A falta da educação paterna gera a falta de respeito pelo próximo.

Os seres humanos encarnam no planeta em busca de evolução espiritual. Outrora, as oportunidades de que tivessem sucesso nessa busca fundamentavam-se na educação que lhes era transmitida nos lares, nas escolas e pelos ensinamentos religiosos. Hoje, os lares viraram dormitórios paternos, os professores das escolas públicas rareiam afastados pelos baixos salários. Apenas os idealistas e os que não conseguem outra profissão permanecem nas salas de aula. Muitos deles não têm o que transmitir aos seus alunos, ou não possuem a técnica necessária para tal, ou não estão suficientemente motivados, em face dos cada vez mais graves problemas que enfrentam no dia a dia da vida das grandes cidades. Em algumas escolas, os professores até têm medo de certos alunos...

Impassíveis a esse quadro, as escolas do crime continuam a exibir seus personagens assassinos, sem caráter, sem piedade, sem religião, sem caridade, sem quaisquer virtudes que não sejam a de sempre levarem vantagem. Ensina-se que os fins justificam os meios, sem discriminar horários e sem considerar quem está na outra ponta da transmissão.

Por isso, que ninguém reclame do quadro de violência que tanto nos inspira medo e insegurança. Os diplomados dessas Escolas do Crime estão apenas mostrando que estudaram bem as suas lições e que a televisão é, na atualidade, de fato, o mais eficaz meio educativo de que dispõe nossa irresponsável sociedade. 

Carlos Hernán Tercero

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