A cultura da morte

 

 

 

 

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uando percebemos o mundo que nos cerca, muitas vezes não gostamos do que nossos olhos vêem. O egoísmo parece tomar cada vez mais conta da terra, fazendo como numa onda avassaladora aumentar o número dos que padecem de algum tipo de enfermidade, seja ela espiritual ou material. Ilhas de prosperidade com elevados padrões de qualidade de vida emergem em oceanos de crises sociais cuja erradicação estaria disponível tão somente imperasse o sentimento do altruísmo e houvesse uniformidade de propósito nos mecanismos do poder terreno. Isso ocorre porque os seres humanos trazem neles embutida, em maior ou menor grau, a tendência ao egoísmo, cada um defendendo com unhas e dentes o quinhão que julga imprescindível à manutenção do seu padrão de qualidade de vida. 

O egoísmo cobre o planeta, cada vez mais, em suas várias gradações: o egoísmo mínimo, que é filho do instinto de conservação inerente a todos os animais; o egoísmo de média intensidade, que é filho da lei do menor esforço e recomenda economia de trabalho na consecução de quaisquer objetivos; o egoísmo máximo, que é filho da ambição de possuir-se muito além do que se pode consumir. Esse último é justificado pelo argumento de que seria necessário armazenar poder em grande quantidade se é que desejamos realizar grandes obras ou defendermo-nos dos que cobiçam esse poder concentrado, (cobiça essa, diga-se de passagem, decorrente da própria concentração de poder). Outros egoísmos de todos os matizes e justificativas inserem-se nos espaços existentes entre os três tipos mencionados. Podemos dizer que todos somos egoístas. Quem declara o contrário é porque está possuído de invejável quantidade do egoísmo da presunção. 

Sendo todos nós egoístas em algum grau, (podemos afirmar isso em termos práticos já que as exceções a essa regra são extremamente escassas) é lícito supor que teremos que continuar a conviver com essa característica dos seres humanos. Todos constatamos que grande parcela de indivíduos age hipocritamente, escondendo o seu egoísmo por trás de maquinações falaciosas ou mesmo cínicas (quando se valem da ignorância de outrem para os iludirem). Alguns resultados desse estado de coisas são exibidos, diariamente, nos noticiários globalizados. As informações nos assustam e passamos a crer menos na raça humana apesar de fazermos parte dela. Em todos os pontos do globo, ouvem-se os alertas da sociedade atemorizada contra os subprodutos do egoísmo: extermínio de espécies, desertificação de solos, taxas de natalidade incompatíveis com o crescimento econômico, deseducação, desagregação da família, crescimento do uso de drogas, homicídios, crimes, desemprego, inversão de valores, injustiças sociais etc.

Os seres humanos necessitam declarar guerra a seus egoísmos, lutando contra os apelos deste sentimento pernicioso. Algo precisa ser feito contra esse monstro que ameaça nossa civilização. Porém, sendo ele uma característica de nossa própria essência de ser, como poderemos exterminá-lo? Isso não parece possível. Mas, se não podemos exterminá-lo, necessitamos atacar as fontes que lhe dão origem, as idéias que o sustentam e as mentiras que o fortalecem. Somente assim, haverá esperança para nosso planeta, já que o modelo de desenvolvimento ora adotado, calcado no egoísmo, a cada dia parece mais insustentável. 

Mas, onde encontrar essas origens? Como deter o monstro do egoísmo? A primeira resposta é bastante simples: no buscar o prazer e no evitar a dor. Esse é o berço de todos os egoísmos. Simples, porém, não é a sua eliminação. Constatamos a dificuldade desse empreendimento ao concordarmos que não podemos remover a dor de nosso caminho, nem viver sem gozarmos nenhum prazer. O próprio Jesus considerou a remoção do egoísmo como o grande ensinamento de sua obra:

“E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Mateus 22:39)

É pelo amor ao próximo que atenuamos nosso egoísmo e todos devemos fazê-lo em cumprimento ao mandamento deixado pelo Cristo. Mas, falar é fácil, pois, como dissemos, o egoísmo é inerente ao ser humano. A única estratégia possível é, portanto, utilizarmos o próprio egoísmo para combater o egoísmo. A fé em muito pode nos auxiliar nesse mister e é exatamente a falta de fé da maioria dos habitantes deste planeta que muito está a dificultar essa tarefa. Por sua vez, essa falta de fé decorre do fato de muitos seres humanos cultuarem, durante seu período de vida, a morte, ao invés de cultuarem a vida. Para isso, contribui a interpretação ao pé da letra do que consta em Hebreus 9:27:

E, como aos homens está ordenado morrerem um vez vindo depois disso o juízo”.

Esse verso, ao ser interpretado ao pé da letra, propaga a cultura da morte, constituindo para muitos a prova de que há somente um juízo e uma morte. De fato, sempre há uma morte e um juízo para cada encarnação. Por isso, não há mentira na afirmação. A forma correta de entendê-la é que existe um julgamento para cada morte relativo aos atos que praticamos na vida imediatamente anterior. A cultura da morte ou da vida única, somada ao egoísmo latente dos seres humanos, tem conduzido a sociedade planetária para caminhos sombrios.

Todos aceitamos que Cristo não pecou e que Deus é justo. Ao permitir que o crucificassem, deixando de exercer sua onipotência para evitar a injustiça, Deus queria nos revelar a pouca importância da vida material quando comparada com a eternidade da existência espiritual. Lembremo-nos de que Cristo jamais escreveu uma palavra. Sua pedagogia, pois que veio para mudar o mundo, compreendia a ignorância do povo e o fato de que escrever, naqueles tempos em que a grande maioria era analfabeta e em que os livros eram raros, constituiria apenas mais uma forma de aumentar o poder dos fariseus que se atribuíam o conhecimento de toda a verdade.

 Ao invés, o Mestre legou-nos seus exemplos e suas parábolas maravilhosas que venceram as transformações e o progresso da sociedade, estando atualizadas até nossos dias, apesar de todo o progresso material. É, pois, mais nos seus exemplos e maravilhas, e não nas versões e idéias dos que tentaram muitos anos depois revivê-los, que devemos nos basear quando buscando a verdade. É claro que todos os que escreveram acerca do Mestre o fizeram com a melhor das intenções, mas segundo o seu entendimento. O progresso do mundo deve basear-se no exemplo do Cristo, mas as construções meramente humanas devem ser cuidadosamente analisadas, mesmo quando as consideramos sagradas. Principalmente, quando os destinos para os quais caminha o planeta pouco parecem ter a ver com os caminhos que Cristo recomendou aos homens seguirem. Mais ainda, quando meditamos nas palavras de Jesus: “Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora” (João 16-12), concluímos que seria um passo muito largo para as mentes daquela época a absorção de outros conhecimentos além da lei do amor que pregava em substituição ao olho por olho do Deus de Abraão. 

Mas, apesar de compreender as limitações do pensamento humano, Jesus subentendeu a reencarnação como forma de retirar o poder de César e transferi-lo a Deus: “Aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus” (João 3-3). Os que sabem que não irão morrer, mas sim nascer para a vida eterna do espírito, submetem-se apenas ao poder de Deus, condenando as arrogâncias e autoritarismos dos poderes terrenos quando eles se voltam contra o que Jesus nos ensinou. A crença em apenas uma existência, por sua vez, transfere parcela do poder de Deus para o seu representante na Terra. Por exemplo, os católicos fervorosos temem a excomunhão do Papa ou, até passado recente, temiam a condenação à morte em decorrência do desrespeito pelos próprios religiosos das palavras constantes em Mateus 7:1 (“Não julgueis para que não sejais julgados”) e 7:2 (“Porque com o juízo que julgardes sereis julgados, e com a medida que tiveres medido vos hão de medir a vós”) condenações estas que ocorriam, não raro, por motivações políticas e/ou econômicas (principalmente em decorrência da “Santa Inquisição”). 

Aqui, cabe ressaltar que todos os seres humanos julgam tudo o que lhes cerca ininterruptamente. O significado de Mateus 7:1 e 7:2 não é que não julguemos, mas sim que não devemos por em prática os resultados práticos de nossos julgamentos, pois assim estaríamos contrariando o que Jesus considerou ser o maior de todos os ensinamentos. Não é possível a um ser humano deixar de exercer o seu julgamento de todas as coisas, pois, caso isso fosse exeqüível, não diferenciaríamos o bem do mal, o que nos tornaria incompatíveis com a essência de Jesus. 

Analisemos os frutos que a crença na inexistência da reencarnação tem produzido em nosso planeta. Assumir que se vive apenas uma existência terrena, pensamento comum à maioria dos seres humanos, faz com que muitos procurem tirar o melhor partido dela, preterindo seus semelhantes em prol de melhor padrão de qualidade de vida. Além disso, a versão majoritária de que Deus perdoará incondicionalmente a todos quantos se arrependam, pode sugerir que ainda é cedo para corrigirmos nossos pecados, já que sempre poderemos nos arrepender mais tarde, obtendo os mesmos resultados. É exatamente dentre os que agem segundo tais princípios que se contam os líderes do planeta, pois são eles os que conseguem amealhar o poder material necessário ao comandamento da Terra. A tese da inexistência da reencarnação, além disso, acarreta na imaginação dos humanos a idéia de um Deus vingativo e fútil, capaz de cegar a única vida de uma criança apenas para que “se manifestassem nela as suas obras” (João 9:3). Essa atitude não se coaduna com o “amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei” (João 13:34). Isso atenua fortemente o pensamento lógico que deveria balizar o dia a dia das pessoas para que estas pudessem se apoiar na fé como numa bengala que lhes poderia evitar a queda. Tal injustiça não nos faz amar e, sim, temer a Deus. Mas, se não amamos a Deus, como amaremos ao nosso próximo, tão inferior a ele?

Fica claro que a criança não nasce cega por que Deus pune a iniqüidade de seus pais, mas sim que para que a obra de Deus aqui traduzida pela lei de causa e efeito nela se manifeste, auxiliando o seu aperfeiçoamento espiritual. Se a criança cega não tivesse jamais pecado, seria injustiça a sua cegueira. Dessa forma, o pecado que a fez nascer cega passou-se em outra existência. Quando Jesus disse “nem ele pecou” falava a verdade porque se referia à presente existência do cego. 

A crença na lei de causa e efeito pela qual se manifestam as obras de Deus em reencarnações expiatórias representa um poder suficientemente grande para fazer-nos usar nosso próprio egoísmo em prol de nossa evolução. Assim, poderemos obter melhores condições de vida em futuras existências. É o nosso egoísmo agindo em prol de sua própria eliminação. Quem, na certeza da reencarnação e da lei de causa e efeito, será capaz de cometer qualquer crime contra seus semelhantes? Tal crença produz no comportamento das pessoas as mais fantásticas metamorfoses. Criminosos convertem-se em bons samaritanos. Políticos desonestos passam a legislar em prol do povo. Empresários reduzem suas margens de lucro, pensando no bem estar de seus semelhantes. Velhos sovinas dedicam-se à pratica da caridade. Antigos inimigos se reconciliam. A necessidade do perdão nos atinge como se fosse um projétil de amor. Exatamente como queria o Mestre. Exatamente como consta em Mateus 12-14, onde afirma ser João o profeta Elias reencarnado: “E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir”.  E, mais adiante, em Mateus 17-12: “Mas digo que Elias já veio, e não o conheceram”. Em Mateus 17-13: “Então entenderam os discípulos que lhes falara de João Batista”. 

É importante observar que a população do planeta jamais atingiu o valor atual, o que dificulta qualquer comparação de base histórica de nossos cenários com os de outras épocas. Entretanto, isso revela que poucas almas estão conseguindo superar o ciclo terrestre de reencarnações, indicando que as religiões não estão sendo capazes de melhorar o caráter de seus fieis. A “cultura da morte” contribui para exortar todos ao desfrute dos prazeres da terra antes que a velhice os atinja, limitando essas possibilidades. A busca do prazer pretere outros afazeres mais louváveis, chamando todos a uma corrida louca pela busca de vantagens superiores às de seus vizinhos. É notória a concordância da maioria com o pensamento de que “ganha quem conseguir o maior numero de brinquedos antes que a velhice impeça ou prejudique o seu uso”, como se a morte existisse. Os cultivadores da idéia da morte não percebem que a vida é, de fato, a morte espiritual temporária a que estamos todos condenados. Muitos deles também descrêem da vida espiritual e, em decorrência disto, da existência de espíritos próximos a nós a influenciarem nossas vidas. Mas, até mesmo nas igrejas evangélicas, as quais, até recentemente, aceitavam a existência apenas do Pai, do Filho e do Espírito Santo, já se verifica o progresso de admitirem a presença de “encostos” que influenciam nossas vidas. 

Erros de tradução e re-interpretações de cunho político são difíceis de serem evitados ao transcrevermos tantas vezes, durante tantos milênios, um documento do teor das Escrituras Sagradas. Precisamos nos livrar da falta de lógica que nos sugere a incompatibilidade entre os atos e as palavras do Deus de Abraão quando comparados com os atos e as palavras de Jesus. Ao confrontamos o Deus que mandava cortar a garganta de crianças e mulheres (Números 31:17) com o oferecei a outra face e perdoai setenta vezes sete, a confusão começa a se instalar em nossas mentes. É justamente essa dificuldade de interpretação que retira a lógica do pensamento religioso e desorienta os fieis, fazendo-os desistirem de falar com Deus. Eles temem não serem disso capazes em face de sua incapacidade anterior de entenderem o descenso entre os ensinamentos do Velho e do Novo Testamento. Eles passam a temer a Deus e não a amá-lo sobre todas as coisas. Eles passam a necessitar de um sacerdote para intermediar suas conversações com Deus (que é intermediada pelos espíritos de luz que nos auxiliam). Todavia, sacerdotes, raramente, estão disponíveis. Assim sendo, seu contato com as coisas de Deus fica transferido para as poucas ocasiões em que comparecem a um templo religioso. Isso, se lá tiverem o costume de comparecer. Assim, Deus vai se tornando cada vez mais distante e os apelos incessantes de nossos egoísmos cada vez mais próximos. É fácil constatarmos quem está vencendo essa batalha.

Temos que destruir a cultura da morte. Temos que fazer com que todos saibam que, definitivamente, não vamos morrer. Temos que compreender que os cristãos que se imolavam aos leões cantando sabiam disso por terem convivido com o Mestre que assim lhes ensinou. Temos que aceitar que a realidade da reencarnação (com a qual convivem muitas outras religiões) foi banida de nossas mentes pelos poderosos aos quais não interessa que enfrentemos os leões de nossas vidas do mesmo modo como os que tiveram a ventura de conviver materialmente com o Cristo.

Somente assim, dominaremos o egoísmo que se abate sobre a Terra e sinaliza os derradeiros dias deste modelo injusto, cruel, insano, ilógico e, por isso mesmo, insustentável.

ibatan

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