A Banalização da Vida

 

 

 

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nte os escombros das torres do onze de setembro, todos se questionam intimamente como foi possível perpetrar-se tal ignomínia contra os valores humanos. O que pode justificar tão covarde assassinato de milhares de desconhecidos inocentes? Como pode a vida humana ter se tornado tão insignificante nas mentes dos que planejaram esse ato? As fortes cenas chocaram o mundo.

E eis que, subitamente, nos damos conta de que a banalização da vida ainda é realidade no terceiro milênio. Nos milênios anteriores, a pobreza dos meios de comunicação e a reduzida população planetária faziam com que não a percebêssemos com a atual intensidade. Hoje, calcula-se que valha cerca de R$ 10,00 o preço da vida em município vizinho ao Rio de Janeiro. Muitos atribuem essa loucura à crise social que abala o País.  Porém, percebe-se que a crise não constitui privilégio brasileiro; é geral. Parece ser um novo tipo de câncer que vagarosamente instalou-se no planeta.

Essa estranha doença afeta considerável parcela de nossa sociedade, na qual poucos parecem incólumes a seus efeitos. Os abismos sociais avolumam-se. A fome ceifa vidas ante abastados celeiros. Doenças já totalmente controladas matam os que não podem adquirir medicamentos ou simplesmente ainda ignoram como lidar com elas. O trabalho de toda uma vida perde seu valor diante da especulação bem sucedida. Os empregos tradicionais, velozmente, dão lugar à demanda por novas habilitações que não são accessíveis com a facilidade que seria de se esperar. Os Estados-Nação enfraquecem-se pelos incontroláveis malefícios da globalização. Não mais existe relação lógica entre a economia produtiva e a economia financeira.

Paralelamente, vemos o crescimento do crime cada vez mais organizado que, pouco a pouco, amplia suas áreas de atuação nos mais inimagináveis setores da sociedade. Sua moeda, a droga, expande-se, financiando atividades de seu interesse, fazendo rolar a bola de neve que nos faz temer cruzar o seu caminho. No Brasil, vemos novos Estados surgirem: as favelas. Sim, pois Estados são, se considerarmos os seus atributos: moeda, população, território e governo. As favelas possuem todos eles. A moeda é a droga; a população, são os favelados; o território, as vielas labirínticas impenetráveis que as constituem; o governo, os procedimentos estabelecidos pelos criminosos relativos à vida nesses locais. Assim, quando vemos o comércio fechar, compreendemos que se trata do cumprimento de uma lei oriunda do governo desse Estado informal. Seus exércitos tornam-se mais poderosos a cada dia. Agora é tarde para concluirmos que Maquiavel estava certo acerca das rebeliões não sufocadas prontamente.

O que está ocorrendo com nosso planeta? Alguns chegam a apregoar o apocalipse! Seria o início do fim da atual era? Afinal, muitas civilizações ascenderam para depois decair. Seria a nossa diferente? Essas respostas dependem de como os humanos utilizarão a pletora de conhecimentos que, hoje, tornam possíveis empreendimentos antes sequer imaginados. A produção é suficiente para todos. É possível assegurar-se a digna sobrevivência dos menos assistidos. Basta que se criem caminhos para possibilitar o acesso de todos aos diversos mercados. Assim, há esperança. 

Entretanto, é importante mencionar que os recursos disponíveis têm que ser socializados pelo seu re-investimento nas atividades econômicas que visam mais lucros e não pela sua distribuição a fundo perdido, iniciativa que tão somente eterniza o problema que se queria solucionar por meio do estímulo ao imobilismo social. São necessárias medidas que possibilitem as pessoas a participarem ativamente do mercado dando a sua contribuição e não apenas as incentivem a usufruírem lucros para cuja obtenção não contribuíram.

Quais são os grandes obstáculos desse caminho?  Simplesmente, as conseqüências do vácuo filosófico que incide sobre nossa sociedade materialista. Ele tem causado o alheamento dos habitantes desse planeta dos assuntos relacionados à busca do propósito da vida que, desde tempos idos, impregnou a imaginação dos seres humanos. Para esse alheamento contribuem a crise que assola a instituição família e o advento da mídia como entidade educadora. As mentes humanas foram sendo progressivamente apequenadas, sendo gradativamente poluídas pela busca insana dos meios de comunicação pela melhoria de seus índices de audiência, mesmo que isso ocorra à custa da exibição de programas que geram ânsias de vomito às pessoas mentalmente sadias. A ocupação pela mídia do espaço que outrora foi preenchido pela educação dos pais e pelas religiões deveu-se, em grande medida, à estagnação destas como mecanismos provedores de respostas às agruras da vida moderna e aos ataques das ideologias materialistas.

Pode-se dizer que a estagnação religiosa só faz aumentar os problemas do mundo. Ela é uma doença causada pelo fato de as religiões, priorizarem sua sobrevivência mesmo ao custo de abalarem os seus próprios ensinamentos. Ao invés de as crenças serem a cada dia menos diferenciadas, (o que teria que ocorrer se buscassem o progresso a qualquer preço) exploram-se as diferenças, apregoando-se as vantagens comparativas de cada uma delas. Nessa competição, perdem para a Ciência e para as ideologias, criando descompasso que em nada auxilia o progresso moral dos humanos. 

É isso o que torna possível a muitos se sentirem em paz enquanto praticando a insensibilidade social. A estagnação religiosa finda por estimular o egoísmo e o sectarismo e atenuar o vulto das atividades direcionadas à melhoria das condições de vida dos excluídos de nosso planeta. Ela contribui para que se busque mais o status social do que a evolução espiritual. Ela facilita desculpas para o que é politicamente correto mesmo enquanto socialmente pernicioso. Ela impele as religiões para a busca de crescente poder político. Ela resulta em que as religiões passem a competir entre si como numa eleição, assemelhando-se a sua atuação na disputa por adeptos à dos partidos políticos. Isso, não raro, influencia o comportamento dos religiosos.

Dissensões religiosas são tratadas como dissensões políticas, e dissensões políticas  sempre geram confrontos. Quase todos, insensatamente, parecem fazer força para não compreenderem que seria altamente improvável que Brahma, Jeová, Olodumaré, Tupã, Krishna, Alah, (acrescente aqui outros nomes de Deus) tivessem criado o mesmo universo, conforme apregoam seus adeptos! Logo, é evidente que são diversos nomes da mesma entidade. Então porque as divergências? Porque os preconceitos? Porque não se integrarem os conhecimentos religiosos na busca de novas concepções que acompanhem o progresso vertiginoso da ciência? O cenário descrito lembra o que se passava com os Fariseus que se perdiam em intermináveis discussões por uma simples palavra enquanto condenavam os ensinamentos apolíticos de Cristo e tramavam a sua condenação.

Paradoxalmente, a estagnação religiosa auxilia o progresso material de nossa civilização. A compreensão de nosso propósito no planeta tenderia a fazer com que dedicássemo-nos mais à contemplatividade da existência - ante a inexorabilidade do karma, do que à competição por novas descobertas tecnológicas motivadas pela busca de lucros por vezes exagerados. Algumas Igrejas disso ainda se beneficiam, atribuindo tal progresso à cumplicidade com o Deus por elas adotado e contabilizando os insucessos da vida à adoção de outras concepções religiosas as quais consideram errôneas ou ao ateísmo. Tal concepção faz com que muitos que procuram esses credos priorizem a melhoria da situação econômica e não a busca pelo progresso espiritual.

A estagnação religiosa integra o rol dos culpados pelo aumento dos índices demográficos, que fizeram com que a população de nossa nave estelar crescesse assustadoramente. A idéia de que sexo é pecado - a não ser quando destinado à procriação - em muito contribuiu para tal. O aumento da população e a falta de progresso das religiões fizeram crescer também as dúvidas, a incredulidade e o materialismo. Sem uma doutrina religiosa plena de lógica que influencie suas consciências, criando chamamento natural a uma vida virtuosa, os seres humanos tendem a se deixar dominar pela lei do menor esforço que os fazem priorizar os prazeres em detrimento dos deveres. Dogmas atentam contra o pensamento lógico. A manutenção dos contrastes que dividem as várias religiões gera falsos conceitos de bem e de mal, como se fosse possível que os que concebemos maus não se julguem bons e os que concebemos bons não possam praticar o mal. Dessa forma, os apelos da mídia tendem a fascinar bem mais do que a carência de lógica e as divergências  religiosas, diminuindo o número dos que se preocupam com as questões existenciais. Cresce o materialismo, gerando preconceitos e anseios insatisfeitos em considerável parcela dessa imensa e desorientada multidão. São esses preconceitos e anseios insatisfeitos que tanto contribuem para a desvalorização da vida.

O mundo abriga, hoje, uma multidão de pessoas dedicadas mais a futilidades, cuja oferta é crescente, do que à busca dos valores espirituais. O problema cresce no mesmo compasso da explosão demográfica.  Mas, isso não quer dizer que se tenha que reduzir a população, embora saibamos que, se não alcançarmos modus vivendi harmonioso, a própria natureza o fará, já que ela sempre regenerou todos os desequilíbrios do planeta. Estamos na era do testemunho imediato dos fatos, por mais herméticos e distantes que possam ser e, talvez, seja o começo dessa atuação corretiva que estejamos presenciando, ao vivo, nos sinistros noticiários de nossos dias onde, cada vez mais, a vida parece valer menos.

ibatan 

 

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